sábado, 3 de outubro de 2009

EIDOS INFO-ZINE # 19

Editorial


Caros Amigos

No seu número 19, o Eidos traz a publicação de um excerto do livro “As idéias absolutistas no socialismo” de autoria de Rudolf Rocker, onde este procura estabelecer os aspectos que diferenciam e identificam as propostas marxista e anarquista. O artigo de Thiago Lemos Silva, que discute o processo de degenerênscia e burocratização da revolução russa de 1917, que neste ano, aliás, está completando 92 anos. Logo em seguida,  o artigo do autonomista John Holloway abordando a ressonância do zapatismo entre os movimentos sociais contemporâneos. E finalmente, a resenha de Fernanda Caroline de Melo Rodrigues sobre “As cinco lições sobre psicanálise” de Sigmund Freud.


Boa leitura e anarquizem!

Contatos

Fernanda Caroline de Melo Rodrigues: fernandaanarquista@yahoo.com.br
Thiago Lemos Silva: thiagobakunin@yahoo.com.br


Social-democracia e anarquismo

A oposição entre a social-democracia e o anarquismo não reside tão-somente na diversidade de seus métodos táticos, mas primacialmente na diferença de princípios. Trata-se de duas concepções distintas acerca da posição do indivíduo na sociedade, de duas interpretações diferentes do socialismo. Desta diferença nas premissas teóricas, resulta por si só, a diferença na escolha dos métodos táticos.
A social-democracia, principalmente nos países germânicos e na Rússia, intitula-se, com preferência, de “socialismo científico” e aceita a doutrina marxista que serve de base teórica ao seu programa. Seus representantes afirmam que o devir da sociedade deve ser considerado como uma série indefinida de necessidades históricas cujas causas é preciso ir buscá-las nas condições de produção de cada momento. Estas necessidades acham sua expressão prática na luta contínua de classes divididas em campos inimigos por interesses econômicos distintos. As condições econômicas, isto é, a forma em que os homens produzem e trocam seus produtos, constituem a base férrea de todas as outras manifestações sociais ou, para empregar a frase de Marx, “a estrutura econômica da sociedade é a base real sobre a qual se levanta a superestrutura jurídica e política e a que responde uma determinada forma da consciência social”. As representações religiosas, as idéias, os princípios morais, as normas jurídicas, as manifestações volitivas, etc., são meros resultados das condições de produção de cada momento, porque é “a forma de produção da vida material, que determina em absoluto o processo de vida social, política e psíquica”. Não é a consciência dos homens que plasma as condições em que vivem, mas ao contrário, são as condições econômicas que determinam sua consciência.
Assim considerando, o socialismo não é a invenção de algumas cabeças engenhosas, mas um produto lógico e inevitável do desenvolvimento capitalista. O capitalismo deve criar primeiro as condições de produção — divisão do trabalho e centralização industrial — nas quais unicamente o socialismo pode realizar-se.
Sua realização não depende da vontade humana, mas apenas de um determinado grau de evolução das condições de produção.
O capitalismo é a premissa necessária e ineludível que deve conduzir ao socialismo; seu significado revolucionário reside precisamente em levar em si, desde o princípio, o germe de sua própria destruição. A burguesia moderna, na qual o capitalismo se sustenta, teve de dar vida, para fundar seu poder, ao proletariado moderno, criando assim seus próprios coveiros. Pois o desenvolvimento do capitalismo se efetua com o rigor de uma lei natural em linhas perfeitamente determinadas das quais não há fuga possível. Pois está na essência desse desenvolvimento o absorver as empresas industriais pequenas e médias, substituindo-as por empresas cada vez maiores de forma que as riquezas sociais se concentrem em número de mãos cada vez menor. Simultaneamente se realiza, de modo impossível de conter, a proletarização da sociedade, até que, por fim, chega o momento em que se encontram frente a frente uma imensa maioria de escravos assalariados e uma pequeníssima minoria de empresários capitalistas. E assim como chegará o tempo em que o capitalismo se tenha tornado um estorvo para a produção, chegará necessariamente a época da revolução social, o momento em que se possa levar a cabo a “expropriação dos expropriadores”.
Para que o proletariado esteja em condições de assumir a direção da terra e dos meios de produção deve apoderar-se primeiro do poder político, o qual, depois de certa época de transição, isto é, depois da supressão total das classes, se irá extinguindo paulatinamente. A conquista do poder político é assim a tarefa principal da classe operária e para preparar a realização desta obra é necessário que os trabalhadores se organizem em partido político independente para a luta política contra a burguesia.
Desta maneira a social-democracia converteu a ação parlamentar no ponto central de sua propaganda, subordinando-lhe toda outra forma de ação. Sob a influência da social-democracia alemã a maior parte dos partidos socialistas dos outros países adotaram em maior ou menor grau o mesmo caráter. No transcorrer dos últimos cinqüenta anos conseguiram organizar em suas fileiras milhões de trabalhadores, colocar-se em todos os corpos legislativos do Estado moderno de classes e penetrar em numerosos casos até o ramo executivo do governo.
Uma imprensa fortemente desenvolvida e uma propaganda impressa realizada em grande escala foram abrindo constantemente à social-democracia novos círculos no mundo operário e na classe média. Esta obra é apoiada ainda por todo um exército de agitadores a soldo e empregados do partido que atuam no interesse de suas respectivas organizações.
Pela exclusão dos anarquistas e de outras tendências que repudiam a ação parlamentar, a social-democracia alemã conseguiu ainda eliminar sistematicamente toda oposição real nos congressos socialistas internacionais.
Desse modo, onde quer que lhe obedecessem massas operárias consideráveis, este partido se desenvolveu como um Estado dentro do Estado e por muitos anos tem estado em condições de esmagar, com desconsideração sistemática e inescrupulosa, qualquer outra tendência socialista.
Somente a catástrofe terrível de 1914 revelou o verdadeiro caráter da social-democracia, destruiu seu prestígio internacional e abriu brecha num edifício que parecia ser para sempre invulnerável a qualquer ataque.
O anarquismo, quer dizer, aquela tendência na ideologia do socialismo que se enfrenta mais irreconciliavelmente com a social-democracia, parte de outras premissas nas suas idéias sobre as condições sociais e a posição do indivíduo na evolução histórica. Seus partidários, de maneira alguma, desconhecem a poderosa influência das condições econômicas no processo geral da evolução social, mas também repelem a fórmula unilateral e fatalista que Marx deu a esta comprovação. Antes de tudo são de opinião que na investigação e apreciação dos fenômenos sociais, pode-se proceder por métodos científicos, mas que de nenhum modo é lícito considerar a história e a sociologia como ciências. A ciência somente reconhece aqueles fatos certos que foram irrefutavelmente estabelecidos pela observação ou experimentação. Neste sentido somente podem considerar-se científicas as ciências chamadas “exatas”, como a física, a química, etc.
A famosa lei da gravitação de Isaac Newton, em que se apoiam todos nossos cálculos astronômicos, é uma lei natural, científica, porque se verifica em todos os casos e não admite jamais “a exceção da regra”.
O desenvolvimento das formas sociais na história não se efetua todavia com a forçosa necessidade das leis da física. Podemos, na verdade, fazer conjeturas sobre a conformação social das condições sociais do futuro e estabelecê-las cientificamente, como pode calcular-se o período de revolução de um planeta. E é complicada e muito desconhecidos são ainda seus pormenores elementares para que possamos falar de uma lei natural férrea que possa servir de base para apreciar, sequer com relativa certeza, as forças motrizes do devir histórico nos tempos passados ou talvez ainda para averiguar as formas sociais do futuro. Por esta razão o socialismo não é uma ciência, não pode ser uma ciência e quando se fala de um “socialismo científico” é vã presunção e frívolo desconhecimento dos verdadeiros princípios da ciência.
Quem aceita a concepção anarquista não compartilha da crença de que o desenvolvimento das condições econômicas deva conduzir indefectivelmente ao socialismo, que o sistema capitalista leve já em si, por assim dizer, o germe do socialismo e que somente seja preciso esperar sua maturidade para que rasgue a envoltura.
Não verá nesta crença outra coisa senão a tradução do fatalismo religioso no campo da economia, o que se torna igualmente perigoso, pois ambas as crenças paralisam o sentimento impulsivo e o instinto de ação e engendram em vez de uma visão viva em constante luta por ampliar suas perspectivas, a mesma e inflexível fé dogmática. O anarquista de maneira alguma vê na divisão do trabalho e na centralização industrial as condições elementares do sistema capitalista de exploração, agudamente opostas por sua própria essência ao socialismo. Bem pode conduzir-nos o desenvolvimento econômico a novas fases da existência social, mas também poderá significar o ocaso de toda civilização. A horrível catástrofe da guerra mundial fala neste sentido uma linguagem eloqüente para todo aquele que tenha ouvidos e queira ouvir. Se os povos da Europa não conseguem com seu esforço fazer surgir do caos presente formas novas e superiores da civilização social nenhum profeta será capaz de prever a que abismo nos arrastará a fatalidade.
Não, o socialismo não virá porque deva vir com a inalterabilidade de uma lei natural; somente virá se os homens se armarem de firme vontade e forças necessárias para pô-lo em prática.
Nem o tempo, nem as condições econômicas, somente nossa convicção interior, nossa vontade, poderá estender a ponte que conduza do mundo da escravidão assalariada à terra nova do socialismo.
Tampouco compartilha o anarquista da opinião de que a evolução das formas sociais capitalistas constituem o necessário antecedente psicológico que prepara a mentalidade do proletário. A Inglaterra, a pátria do capitalismo e da grande indústria, não provocou, apesar disto, um movimento socialista de consideração, enquanto outros países de economia quase exclusivamente agrária, como a Andalusia e a Itália meridional, contam há muitos anos com fortes organizações socialistas. O camponês russo, que trabalha ainda em condições primitivas de produção, está mais próximo da ideologia socialista porque está vinculado com seus vizinhos muito mais intimamente que nós. O comunismo agrário que o camponês russo praticou por séculos implica uma constante colaboração e solidariedade e desenvolveu assim um instinto social tal que dificilmente se encontrará igual no proletariado industrial da Europa ocidental e central.
Não obstante tudo isso os teóricos da social-democracia russa anunciaram em nome da ciência que as instituições comunais antiquadas da povoação rural russa estão destinadas a desaparecer por não estarem em concordância com o desenvolvimento moderno e constituir em conseqüência um obstáculo para o socialismo.
Para os partidários do anarquismo, as formas de Estado e a legislação não são exclusivamente a superestrutura política da estrutura econômica da sociedade; as idéias, os conceitos de justiça e outras formas da consciência humana não são meros produtos do processo produtivo de cada momento, mas fatores determinantes do espírito humano que, se influídos pelas condições econômicas, reagem, porém, por sua vez, sobre essas mesmas condições econômicas da sociedade. Desta forma se origina uma série infinita de efeitos recíprocos até ser freqüentemente impossível comprovar um fator básico. Podem ser consideradas como materiais todas estas manifestações e pode supor-se com Proudhon que todo ideal é uma flor cujas raízes se encontram nas condições materiais da vida. Mas neste caso, as condições econômicas seriam somente uma parte dessas chamadas condições materiais gerais: não constituiriam a base férrea, determinante do absoluto processo evolutivo de todas as outras manifestações vitais da sociedade mas que estariam submetidas à mesma e nunca interrompida interação de todos os demais fatores da vida material. Assim, por exemplo, o Estado seria, sem a menor dúvida, em primeiro lugar, um produto do monopólio privado da terra, instituição nascida com a cisão da sociedade em distintas classes com interesses também distintos. Mas haveria também que admitir que uma vez existente dedica todas as suas forças à perpetuação desse monopólio e à manutenção das diferenças entre as classes com o objetivo de conservar assim a escravidão econômica. Converteu-se deste modo o Estado, no curso de sua evolução, no mais formidável organismo de exploração da humanidade. Tais efeitos recíprocos podem ser comprovados à vontade em qualquer número e em todas as formas imagináveis; são, na verdade, característica na evolução histórica da humanidade e se tornam tão evidentes que nossos neo-marxistas se vêem obrigados a fazer contínuas e novas concessões ante a crítica inexorável que vai destruindo sua interpretação da história.
Se para a social-democracia a conquista do poder político é a tarefa principal, prévia para a realização do socialismo, para o anarquismo é de importância decisiva a supressão de todo poder político.
O Estado não se formou por um ato de vontade social, mas é uma instituição nascida numa determinada época da história humana como conseqüência do monopólio e da divisão da sociedade em classes.
O Estado não surgiu para a defesa dos direitos da coletividade, mas exclusivamente para a defesa dos interesses materiais de pequenas minorias privilegiadas a expensas da grande massa. O Estado não é outra coisa que o agente político das classes possuidoras, a força organizada que mantém em pé o sistema de exploração econômica e o governo de classe.
Suas formas são variadas no curso da história mas sua índole essencial, sua missão histórica, é sempre a mesma. Para a grande massa do povo, o Estado, em todo tempo e em qualquer de suas formas, somente constituiu um instrumento brutal de opressão; por isto é impossível que sirva alguma vez a essas mesmas massas como instrumento de libertação. A social-democracia que, em seus diferentes matizes, está ainda empapada das idéias do jacobinismo, crê que é impossível prescindir do Estado porque somente concebe a realização do socialismo de cima para baixo por meio de decretos e “ukases”. O anarquismo, que aspira à destruição do Estado, vê somente um caminho para a implantação do socialismo e esse caminho vai de baixo para cima, pela atividade criadora do próprio povo e com a ajuda de suas organizações econômicas. Surge aqui uma questão em que aparece claramente a diferença fundamental entre ambas as tendências: a relativa à posição do indivíduo na sociedade. Para os teóricos do socialismo, o indivíduo isolado é somente um elemento insubstancial na engrenagem geral da produção social, uma “força de trabalho”, instrumento inanimado da evolução econômica, que determina irrevocavelmente sua vida mental e suas manifestações volitivas.
Esta concepção é o resultado necessário de toda sua doutrina. Enquanto tratam do indivíduo, consideram-no sempre como um produto do meio social ao qual aplicam, com todo o rigor, os conceitos gerais.
Os social-democratas amoldaram-se a uma determinada visão da realidade vivente e são de certa maneira vítimas de uma ilusão ótica quando confundem a miragem de sua imaginação com a própria realidade.
Não vêem na evolução histórica senão as rodas mortas, o mecanismo exterior e esquecem assim muito facilmente que atrás das forças e condições de produção há seres vivos, homens de carne e osso, com desejos, inclinações e idéias próprias e por isso as diferenças pessoais — que constituem depois de tudo a verdadeira riqueza da vida — somente lhes parecem aditamento supérfluo e a própria vida, algo completamente descolorido e esquemático.
O anarquismo segue também aqui outros caminhos. O ponto de partida de suas especulações sociais é o indivíduo isolado: não o indivíduo como sombra abstrata desligada de seu meio social, mas como ente social vinculado aos demais homens por mil laços materiais e espirituais.
Para apreciar o bem-estar social, a liberdade e a civilização de um povo, o anarquista não se fundamenta na produção quantitativa ou na “liberdade” formal estabelecida em qualquer constituição nem no grau cultural de um determinado período. Trata-se de determinar, pelo contrário, a participação individual que no bem-estar toca a cada ser, em que medida este se encontra em condições de satisfazer dentro do marco da coletividade suas inclinações, desejos e necessidades de liberdade.
Segundo estes dados formulará seu juízo sobre o caráter geral da sociedade. Para o anarquista, a liberdade pessoal não é uma representação indefinida e abstrata mas concebe-a pelo contrário como a possibilidade prática de que cada qual pode desenvolver suas forças, talentos e aptidões naturais. E como reconhece na consciência da personalidade a expressão suprema do instinto de liberdade repele fundamentalmente todo princípio de autoridade, toda ideologia da força bruta. A completa liberdade baseada na igualdade econômica e social é para ele a premissa única de um futuro digno do homem. Somente nestas condições pode dar-se, segundo sua opinião, a possibilidade de que se desdobre até sua máxima florescência em cada homem o sentimento de responsabilidade pessoal e de que se desenvolva nele a consciência viva da solidariedade em um grau tal que seus desejos e necessidades apareçam, por assim dizer, como resultado de seus sentimentos sociais. Para o caráter dos movimentos sociais, sua forma libertária de organização é de importância decisiva, pois é a que melhor responde à sua natureza íntima; assim é apenas natural que também neste sentido haja um abismo intransponível entre a social-democracia e o anarquismo.
Os partidários da social-democracia, que já se intitulam maioritários, independentes ou “comunistas”, são, por íntima convicção, jacobinos, representantes do princípio da centralização. Assim como a democracia é por sua própria índole centralista, de igual maneira o federalismo responde melhor à natureza íntima do anarquismo.
O federalismo foi sempre a forma natural de organização de todas as correntes realmente sociais e das instituições baseadas nos interesses coletivos, como foram, por exemplo, as federações livres das tribos nos tempos primitivos, as federações das cooperativas das feiras nos começos da Idade Média, as guildas ou corporações de artesãos e artistas nas cidades livres e as uniões federativas das comunas livres, às quais deve a Europa uma cultura tão maravilhosa. Estas eram formas de organização verdadeiramente sociais, na acepção ampla da palavra; nelas harmonizavam a livre atividade individual e os interesses gerais da coletividade; eram agrupações humanas engendradas espontaneamente pelas necessidades da vida. Cada grupo era senhor de seus próprios assuntos e estava federado ao mesmo tempo a outras corporações para a defesa e a prosperidade de seus interesses comuns. O interesse coletivo constituía o eixo de suas aspirações e a organização de baixo para cima era a expressão mais acabada destas aspirações.
Somente com a formação do Estado moderno começa a era do centralismo. A Igreja e o Estado foram seus primeiros e mais conspícuos representantes. Os determinantes da nova forma de organização não foram mais os interesses da coletividade, mas os interesses das minorias privilegiadas que fundavam seu poder na exploração e na escravidão da grande massa.
O federalismo, a organização natural de baixo para cima, foi substituído pelo centralismo, a organização artificial de cima para baixo.
A liberdade teve de ceder ante o despotismo, o velho direito consuetudinário se transformou na lei, a variedade na uniformidade e o esquema, a educação e a formação da personalidade no amestramento intelectual, a responsabilidade pessoal na obediência cega, o cidadão livre no súdito.
É significativo para o caráter despótico da social-democracia, o fato de que haja copiado sua forma de organização dos modelos proporcionados pelo Estado. A disciplina foi sempre e continua sendo a divisa mais característica de seus métodos educativos e com os mesmos meios com que o Estado forma súditos leais e bons soldados, a social-democracia forma companheiros de disciplina provada.
Uniu milhões de partidários sob sua bandeira, mas afogou também a iniciativa fecunda e a capacidade de ação autônoma nas massas.
Engendrou enfim um árido governo de empregados, uma nova hierarquia, uma espécie de providência política ante a qual a livre iniciativa e a independência de pensamento devem amainar as velas.
Somente assim se explica que a social-democracia haja podido extraviar completamente sua ação no ambiente estreito do parlamentarismo burguês, que a vulgar e mesquinha política do dia tenha podido chegar a constituir o ambiente espiritual de toda sua propaganda. Organizou ela seus eleitores como o Estado seus exércitos e erigiu, como este, em princípio supremo, a impotência espiritual. No caminho do poder político enterrou tudo o que originariamente havia nela de socialista, de tal forma que somente restou um encoberto capitalismo de Estado que se introduz no mercado político sob um rótulo falso.
A burguesia não encontrou ainda seu “próprio coveiro”, mas não se deve à social-democracia o fato de que aquela não tenha podido chegar a ser até agora o coveiro do socialismo.
O anarquismo é o inimigo indômito do Estado: repele em princípio toda colaboração nos corpos legislativos, toda forma de ação parlamentar. Seus partidários sabem que nem a mais livre lei eleitoral será capaz de atenuar os abissais contrastes na sociedade moderna e que o sistema parlamentar não tem outro objetivo senão o de emprestar aparências de legalidade ao sistema da mentira e das injustiças sociais e induzir o escravo a selar ele mesmo, com o selo da lei, sua própria escravidão. O método tático do anarquismo é a ação direta contra os defensores do monopólio e do Estado; trata de iluminar a consciência das massas pela palavra falada e escrita. Participa em todas as lutas diretas, econômicas e políticas, dos oprimidos contra o sistema da escravidão assalariada e a tirania do Estado e trata de comunicar a estas lutas, por sua colaboração, um mais profundo significado social, trata enfim de fomentar as próprias iniciativas das massas e de fortalecer nelas o sentido de responsabilidade. Os anarquistas são os genuínos sustentadores da revolução social, os que levam adiante por todos os meios a guerra contra o poder e contra a exploração do homem pelo homem, os que têm como bandeira de combate a libertação social, econômica e política da humanidade.
Constituem as hostes do socialismo libertário, os arautos da civilização social do futuro.


Rudolf Rocker

Excerto de ROCKER, Rudolf. As idéias absolutistas no socialismo. Disponível em: http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/rocker.html.






Revolução Russa: a distopia do século XX

Em março de 1920, quase três anos após o desencadeamento do processo revolucionário que culminou com a tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia, durante o mês de outubro, o teórico e militante libertário Piottr Kropotkin enviou a Lênin uma carta, onde revelava de maneira breve e assistemática, suas observações, hoje antológicas, acerca dos destinos da Grande Revolução. De acordo com o anarquista, a centralização autoritária do poder e a falta de democracia que se instauraram na Rússia pós-revolucionária, constituíam fatores que, futuramente, transformariam, ironicamente por força e obra dos comunistas, a palavra socialismo em uma espécie de anátema.
Hoje, passados 92 (noventa e dois) anos da data em que se comemorou o primeiro aniversário da Revolução Russa, muitas coisas aconteceram. A Rússia não é mais socialista e a União Soviética nem sequer existe mais. Os países que logo após o término da Segunda Guerra Mundial aderiram ao modelo do socialismo real, como a Alemanha e a Polônia, não suportando mais os abusos e desmandos do “stalinismo”, o abandonaram ainda nos fins dos anos 1980, processo através do qual, em 1991, o colosso comunista seria reduzido a pó. Outros países como China e Cuba, que também adotaram o mesmo modelo, respectivamente nos anos 1949 e 1959, se encontram em uma posição bastante delicada, onde a adesão mundial ao neoliberalismo econômico e a globalização política, forçam os governos vermelhos remanescentes a se dobrar às imposições do FMI, através da adoção da cartilha do capitalismo, para continuarem existindo. Tal cartilha recomenda, desde a privatização das empresas públicas, até a abertura dos mercados internos. E as previsões de Kropotkin, tidas como pueris e ingênuas à época pelos então marxistas, se concretizaram de modo quase que profético.
Antes de dar continuidade a esse texto e expor alguns argumentos, cobram-se questões que nos são muito caras. Como por exemplo, o isolamento da Rússia em meio a outras nações capitalistas, ou mesmo seu atraso econômico. No entanto, embora acreditemos que estes fatores também tenham sua importância, acreditamos que outros fatores, até recentemente ignorados, ganham uma importância capital para a explicação do fenômeno totalitário na Rússia, se forem devidamente analisados, é claro. Concordando com Maurício Tragtenberg, o processo de degenerescência e burocratização do socialismo na União Soviética, começou não com Stalin, como dizem a maioria dos historiadores, e sim com Lênin, no momento em que este, ao lado de Trotsky e de outros membros do Partido Bolchevique, suprimiu todas as formas independentes e autônomas de organização dos trabalhadores, como os sovietes e os sindicatos livres. Quando, de maneira arbitraria e indiscriminada, começaram a perseguir todos os revolucionários não comunistas, que outrora eram a glória da Revolução, e que não passavam agora de traidores a serviço do capitalismo internacional.
Os resultados, como era de se esperar, foram a substituição dos sovietes por órgãos do Estado (que ironicamente manteve o nome dos organismos primitivos), a repressão aos marinheiros de Kronsdat em 1921, que reivindicavam, além do direito à greve e a eleições livres, o fim da comissariocracia do Partido e uma maior atuação dos conselhos operários na construção do socialismo. A destruição da Comuna autogestionária de Makhno na Ucrânia que, desde 1918, tivera êxitos significativos na coletivização dos latifúndios e fábricas entre os trabalhadores e também no impedimento das forças contra-revolucionárias, comandadas pelos generais brancos Deínikin e Wrangel e, por fim, a desarticulação do Grupo Oposição Operária, surgido no interior do Partido Bolchevique e liderado por Alexandra Kolontai que, no período do “Comunismo de Guerra”, criticou a adoção do método taylorista de organização do trabalho, apontando seus efeitos nocivos para o desenvolvimento do projeto socialista.
Como se pode perceber, foi lento e complexo o processo através do qual, com uma nomenclatura revolucionária, se deu a contra-revolução. E ainda existem pessoas que hoje, dizem que se caso Trotsky houvesse substituído Lênin após a sua morte tudo teria sido diferente! Para finalizar, acredito que seria profícuo e de grande valia mencionar, mesmo que em parte, algumas das reflexões de Emma Goldman a respeito da Revolução Russa, mas que seriam cabíveis para analisar qualquer outro processo revolucionário que queria realmente implantar o socialismo:

(...) Nunca será demais salientar que a revolução terá sido feita em vão, a menos que seja inspirada por um verdadeiro ideal. Os métodos revolucionários devem estar em harmonia com os fins revolucionários (...) pois eles só poderam servir como uma verdadeira e segura ponte para a nossa vida se forem construídos com os mesmos materiais da vida que se quer alcançar (GOLDMAN, p8, 2005)

Thiago Lemos Silva

Versão revista e atualizada de artigo já publicado em Eidos info zine, n 11, 2006 (versão impressa)

Referências:

GOLDMAN, Emma. O Fracasso da Revolução Russa. Disponivel em: htp://www.nodo50.org/sabotagem/, Acesso em: out 2005.

Kropotkin Textos Escolhidos. TRAGTENBERG, Maurício (Org. e Trad.). Porto Alegre: L&PM, 1987.

TRAGTENBERG, Maurício. Reflexões sobre o socialismo. São Paulo: Moderna, 1986.
______________. A Revolução Russa. São Paulo, Faísca, 2007





Zapatismo urbano

Eu não sou um camponês indígena. Provavelmente você, caro leitor, tampouco seja um camponês indígena. Mesmo assim, esta discussão gira em torno de uma revolta camponesa indígena.
Os zapatistas de Chiapas são camponeses. A maior parte dos que escrevem e lêem este jornal é composta por habitantes da cidade. Nossas experiências são muito distantes daquelas dos zapatistas de Chiapas. Nossas condições são muito diferentes daquelas dos zapatistas de Chiapas, e nossas formas de luta também. Mesmo assim, a ressonância da revolta zapatista nas cidades foi enorme. Por quê? O que o zapatismo significa nas cidades?
Houve duas formas de reação nas cidades. A primeira é a reação de solidariedade: a luta dos indígenas de Chiapas é uma luta justa, e nós damos a ela todo o apoio material e político possível. A solidariedade define a luta como sendo a luta “deles”, e “eles” são índios que vivem em Chiapas. Não repudio essa reação, mas não é isso o que me interessa aqui.
A segunda reação vai muito mais além. Aqui não é uma questão de solidariedade com a luta de outros, mas de entender que os zapatistas e nós mesmos somos parte da mesma luta. Os zapatistas de Chiapas não nos dão um modelo que possamos aplicar à nossa parte da luta, mas vemos sua forma de luta como uma inspiração para o desenvolvimento de nossas formas de luta. Neste sentido podemos falar da expansão do zapatismo nas cidades, do desenvolvimento de um zapatismo urbano, para o qual o EZLN não é um modelo mas um constante ponto de referência.
Não há progressão linear aqui. Não estamos falando da expansão de uma organização (apesar de que certamente a expansão da Frente Zapatista no México é parte do processo). Tampouco se trata realmente de uma questão da expansão de uma influência de Chiapas. Não se trata de que as decisões do EZLN tenham influência nas lutas em Roma ou em Buenos Aires. É antes uma questão de ressonância e inspiração. A revolta zapatista teve enorme impacto nas cidades do mundo porque os temas que o EZLN levanta e as orientações que eles sugerem ressonaram fortemente com as preocupações e direções das pessoas nas cidades. Eles foram uma fonte constante de inspiração, porque formularam com particular clareza (não somente nos comunicados, mas em suas ações) direções e temas que já estavam presentes nas lutas das cidades.
O propósito de falar de zapatismo urbano é duplo. Por um lado é uma forma de focar mais de perto esse processo. O que é essa ressonância? Trata-se de uma ressonância real ou imaginária? Quais são as diferenças entre o zapatismo nas cidades e o zapatismo no campo? Quais são os problemas práticos para o desenvolvimento desse tipo de política nas cidades?
Mas, adicionalmente, falar de zapatismo urbano é falar de zapatismo como um desafio. Os zapatistas não pedem nossas simpatia nem nossa solidariedade. Comemorar os 10 e os 20 anos do EZLN não deveria ser uma celebração deles, mas um desafio para nós. Eles nos pedem para nos juntarmos em sua luta por um mundo de dignidade. Como o fazemos, nós que vivemos nas cidades, nós que escrevemos e lemos esse jornal?
A revolta zapatista foi um ponto de referência fundamental das lutas urbanas nos últimos dez anos. Mesmo assim há óbvias diferenças nas condições e formas de luta. Nós que vivemos nas cidades e vemos os zapatistas não estamos organizados como um exército. Não vivemos dentro de formas de estruturas de suporte comunais que existem em Chiapas. Não temos terra para plantar os víveres básicos necessários à sobrevivência, e não estamos, de forma geral, acostumados com os níveis de completa pobreza que constitui a experiência diária dos zapatistas de Chiapas.
Há aspectos na revolta zapatista que não encontraram nenhum eco nas cidades. Nós, zapatistas urbanos, geralmente não queremos ser organizados como um exército, e freqüentemente rejeitamos o militarismo como uma forma de organização e de conceito de luta. Nos atuais debates na Itália, os zapatistas são mesmo tomados como modelo para defender uma completa rejeição de toda violência. O outro aspecto do zapatismo de Chiapas que encontra pouca ressonância nas cidades é o seu uso de símbolos nacionais – a bandeira nacional, o toque do hino nacional. O movimento zapatista urbano tende a não ser nacionalista e em muitos casos é profundamente antinacionalista. Ele tem sido menos um movimento internacional do que um movimento global, um movimento de luta para o qual o capitalismo global, e não o estado nação, tem sido o principal ponto de referência.
Quais, então, são os aspectos da revolta zapatista que encontraram eco nas cidades do mundo? O mais óbvio é o mero fato da rebelião – o fato de que os zapatistas levantaram-se quando o tempo da rebelião parecia já ter passado, o seu !Ya basta! para um mundo que é tão obviamente obsceno.
Mas há mais que isso. Trata-se também que o seu !Ya basta! se volta também contra uma esquerda que tornou-se envelhecida, rígida e alienante. É a rejeição tanto do vanguardismo revolucionário quanto do reformismo estatal, a rejeição do partido como forma organizacional e da busca do poder como objetivo.
A rejeição das velhas formas de políticas de esquerda nos deixa um enorme ponto de interrogação. Isto em si é importante. O dito zapatista “preguntando caminamos” adquire uma ressonância particular, porque somos conscientes de que não sabemos o caminho adiante. O mundo à nossa volta nos faz gritar, mas onde vamos com o nosso grito, o que fazemos com o nosso grito? A política da rebelião é uma política de busca – não pela linha correta, mas por alguma forma de caminho adiante, alguma forma de tornar nosso grito efetivo. Não há partido para nos dizer qual caminho seguir, então devemos encontrá-lo nós mesmos.
A política da pergunta nos leva a certas formas de organização. A forma organizacional dos zapatistas de Chiapas se caracteriza por uma tensão, como eles mesmo enfatizam. Esta é a tensão concentrada em seu princípio de “mandar obedeciendo”. De um lado, estão organizados como um exército, com tudo o que isso significa em termos de linhas verticais de comando. Por outro, o exército se submete ao controle dos conselhos das aldeias, onde a discussão e o consenso são os princípios guias.
A rejeição do partido como uma forma organizacional significou (inevitavelmente, talvez) o renascimento do conselhismo, o renascimento do conselho ou assembléia. O conselho é a forma tradicional de expressar revolta que surge reiteradamente em rebeliões, da Comuna de Paris aos Conselhos de Bairro da recente revolta na Argentina. É uma forma de organização expressiva, que procura articular a raiva e as preocupações dos participantes. Isto pode ser contrastado com a forma partido, que não é expressiva, mas instrumental, desenhada para atingir o fim de ganhar o poder estatal. Como forma expressiva, o conselho tende a ser horizontal em suas estruturas, encorajando a livre participação de todos e procurando atingir o consenso em suas decisões. Visto dessa forma, o conselho não é tanto uma estrutura formal, mas uma orientação organizacional. Esta orientação organizacional – a ênfase na horizontalidade, o encorajamento da expressão das preocupações das pessoas, sejam ou não sejam “revolucionárias” ou “políticas” – tem sido um componente característico da atual onda de lutas urbanas: não somente dos conselhos de bairro da Argentina, mas igualmente de alguns dos grupos piqueteros, das Mães da Praça de Maio, dos Centri Sociali em Roma, Milano e Turim, do movimento altermundista em geral.
O conselhismo se relaciona com a questão da comunidade. Nas áreas zapatistas de Chiapas a comunidade existe, não como um idílio a ser romanceado, mas simplesmente porque a maior parte das pessoas de uma aldeia conhecem-se umas às outras durante toda a vida e porque há práticas estabelecidas de trabalho e tomadas de decisão comuns. Nas cidades, freqüentemente há muito pouco senso de comunidade. As pessoas que trabalham juntas não necessariamente vivem próximas, e pessoas que vivem próximas umas às outras freqüentemente não têm contato. O grito de protesto que sentimos é freqüentemente sentido como um grito isolado e desesperançado, um grito que compartilhamos na melhor das hipóteses com um punhado de amigos. A (re)construção de ligações de comunidade tem sido, portanto, um tema constante no movimento das cidades. A construção de centros sociais ou cafés alternativos, o encontro de pessoas em movimentos informais e dinâmicos criam novos padrões de comunidade e confiança mútua que são parte e parcela do desenvolvimento de formas conselhistas de organização.
Talvez o desafio central do zapatismo urbano seja o desafio da autonomia. Autonomia é simplesmente o outro lado de dizer que nós queremos mudar o mundo sem tomar o poder. Rejeitar a busca do poder estatal significa a rejeição do partido como forma de organização (entendendo partido como uma forma de organização orientada ao Estado). Mas significa muito mais que isso. Significa também uma mudança no entendimento do conflito social ou luta de classes. O conceito tradicional vê a luta de classes como uma luta pelo poder, uma luta pelo poder que inevitavelmente determina a agenda, os ritmos e as formas de luta. A confrontação é então o pivô da luta social. Se, entretanto, dizemos que não queremos tomar o poder, então muda toda a concepção de luta. O que é central agora não é a confrontação com o outro lado (o capital) mas a construção de nosso próprio mundo. Tentamos nos focar em nosso próprio fazer, para impulsionar o conflito para o nosso lado.
Isto ainda é luta de classes, ainda é confronto com o capital (inevitavelmente, uma vez que o capital é a imposição de um controle externo de nossa atividade). Mas tanto quanto possível nós tomamos a iniciativa, definimos a agenda. Fazemos o capital seguir a nossa agenda, e então se torna claro que a agressão vem deles, não de nós. Não podemos ser autônomos em uma sociedade capitalista, mas podemos impelir a nossa autonomia tão longe quanto possível. O capital é a negação da autonomia, a sempre repetida negação de nossa autodeterminação. (Como parte disso, o Estado é a sempre repetida negação do conselho). Se vemos a confrontação como o eixo da luta, então estamos antecipando e consequentemente participando nessa negação. Fazendo do desenvolvimento de nossa própria criatividade (nosso próprio poder-fazer) o centro do movimento, o capital é revelado como um parasita, forçado o tempo inteiro a nos perseguir. Isto é ilustrado pelo Caracoles, o estabelecimento zapatista de suas próprias Juntas de Buen Gobierno, nas quais os zapatistas desdenham o Estado, dão as costas ao Estado, não demandando nada dele nem confrontando-o abertamente, somente fazendo suas próprias coisas.
Mas fazer nossas próprias coisas, desenvolver nossa própria criatividade, não é o mesmo nas cidades e no campo. Não possuímos terra na qual possamos plantar mesmo os mais básicos alimentos. Pode ser possível ocupar terra para estas finalidades (como alguns dos grupos piqueteros na Argentina começam a fazer), mas para a maior parte dos grupos urbanos esta não é uma opção. Para desenvolver nossa autonomia somos forçados a situações contraditórias, nas quais é muito melhor reconhecer essas contradições do que maquiá-las, exatamente como os zapatistas tiveram o grande mérito de reconhecer desde o início a contradição de ser uma organização militar em um movimento pela dignidade humana. Grupos urbanos autônomos sobrevivem ou na forma de subsídios estatais (às vezes arrancados à força pelos próprios grupos, como no caso dos piqueteros que usam os bloqueios de estradas para forçar o governo a dar dinheiro aos desempregados) ou na base de alguma mistura de emprego e subsídios estatais ocasionais ou regulares. Então, muitos grupos urbanos são compostos de uma mistura de pessoas em empregos regulares, de pessoas que estão por escolha ou necessidade em empregos irregulares ou ocasionais e daqueles que (novamente por escolha ou necessidade) são desempregados, freqüentemente dependentes de subsídios estatais ou alguma forma de atividade mercantil para sua sobrevivência. Estas diferentes formas de dependência de forças que não controlamos (do capital) colocam problemas e limitações que devem ser reconhecidos. Ao mesmo tempo, a significação destas limitações obviamente depende da força coletiva dos grupos: no caso dos piqueteros, por exemplo, o pagamento dos subsídios estatais foi imposto por bloqueios de estradas e administrado pelos próprios grupos.
Todas essas diferentes formas de dependência do capital são impostas pela propriedade, pelo fato de que toda a riqueza produzida pelo fazer humano é congelada na forma de propriedade, que nos confronta e nos exclui. A limitação à nossa autônoma autodeterminação aparece na forma de propriedade, atrás da qual se colocam as forças da lei e da ordem que defendem a propriedade. Parecemos ser forçados, então, de volta à lógica da confrontação na qual perdemos a iniciativa, ou na qual somos forçados a nos focar em ganhar o poder, de forma que possamos controlar a polícia e mudar as leis de propriedade. Se excluímos esse caminho (simplesmente porque o controle do Estado tende a tornar-se o controle pelo Estado), como podemos avançar? Possivelmente desfetichizando a propriedade, vendo que a propriedade não é uma coisa estabelecida, mas um processo constante de apropriação, um verbo, não um substantivo. O problema então não é conceituar nossa própria ação em termos de desafio à propriedade, mas focar em nossa própria construção de um mundo alternativo e pensar como evitar a apropriação capitalista dos produtos de nosso próprio fazer.
Todos os problemas indicados apontam para os perigos de confundir uma ênfase na autonomia com um conceito de micropolítica. A noção de autonomia, como entendida aqui, aponta para a centralidade de nosso próprio fazer e o desenvolvimento de nosso próprio poder-fazer: se vemos o mundo dessa perspectiva, então é claro que o capital é o parasita e que os assim chamados “mandatários” simplesmente nos perseguem o tempo todo tentando apropriar-se dos resultados de nosso fazer criativo. O problema da revolução é o de livrar-se dos parasitas, evitar que eles se apropriem da criatividade e de seus resultados, para fazê-los irrelevantes. Esta luta não requer nenhuma organização central (e certamente nenhuma orientação em direção ao Estado), mas sua força realmente depende de seu caráter massivo. O que qualquer grupo particular pode conseguir claramente depende da força de um movimento inteiro pressionando em direções iguais ou parecidas. A força dos grupos componentes depende da força do movimento, assim como a força do movimento depende da força dos grupos componentes.
Qualquer que seja o modo como pensemos a revolução, nos deparamos com a tarefa de dissolver a Realidade. A transformação do mundo significa mover-se de um mundo governado pela realidade objetiva para um mundo no qual a criatividade subjetiva é o centro, no qual a humanidade se torne o seu “próprio sol verdadeiro”. A luta por tal mundo significa um constante processo de crítica, uma processo de minar a objetividade da realidade e mostrar que ela depende absolutamente para sua existência da criação subjetiva. Nossa luta é a luta contra o mundo-que-é, com suas regras de lógica que nos dizem que não-há-alternativa, com sua linguagem de prosa que fecha nossos horizontes.
A poesia da revolta zapatista (de seus comunicados e de suas ações) não é periférica ao seu movimento, não é a decoração externa de um movimento fundamentalmente sério, mas central para sua luta como um todo. O fato de que os zapatistas de Chiapas (e em algum grau outros movimentos indígenas latino-americanos) tenham tido tal impacto nas lutas urbanas do mundo tem muito a ver com a linguagem que eles usam. Não é somente uma questão de palavras bonitas, ou das indubitáveis habilidades literárias de Marcos. É acima de tudo o fato de que eles oferecem uma forma diferente de ver o mundo, uma visão que quebra com a lógica dominante do não-há-alternativa. A poesia (e naturalmente outras formas de expressão) vem jogar um papel decisivo na luta anticapitalista: poesia não como palavras bonitas, mas como luta contra a lógica prosaica do mundo, poesia como o chamado de um mundo que ainda não existe.
Isto é um romantismo perigoso? Estão os zapatistas, sem intenção, levando a juventude rebelde do mundo a formas de ação que são perigosamente não realistas? Recentemente, como parte das celebrações dos 10/20, os zapatistas enfatizaram a centralidade da organização em sua luta: esta é uma forma de contrariar a impressão de que sua luta é somente poesia, somente o poder da palavra?
Talvez haja um elemento de romantismo na ressonância da luta zapatista. Às vezes, para os apoiadores dos zapatistas que visitam as comunidades zapatistas em Chiapas, há indubitavelmente um choque entre suas expectativas e a realidade de suas experiências. Em geral, entretanto, não é o caso. Aqueles ativamente envolvidos na luta, seja nas cidades ou no campo, estão a par das dificuldades que eles enfrentam e da importância da organização. A poesia do zapatismo não deflete as pessoas da questão da organização. O que ela faz, ao invés, é abrir perspectivas em um mundo que parece tão terrivelmente fechado. Mais do que isso, ela sugere formas de ação que quebram com a lógica do capital e são mais difíceis para o capital integrar na textura da dominação.
A acusação de romantismo realmente tem a ver com a questão do poder. O “realismo” é identificado com a perspectiva que foca o poder e vê a organização e a ação como sendo instrumentos para atingir certas mudanças (sejam mudanças pequenas ou a mudança radical da sociedade). O que esta perspectiva realista não consegue enxergar é que a completa instrumentalidade do enfoque leva à adoção de formas de ação e de organização que neutralizam e desmobilizam o movimento por mudança. É precisamente porque o realismo instrumental não conseguiu atingir o objetivo da mudança social radical que as pessoas em todos os lugares se distanciaram deste enfoque, em direção a formas de ação que são expressivas, ao invés de instrumentais. Parte disso é a rejeição do objetivo de tomar o poder estatal e do partido como forma organizacional. A poesia do movimento é parte do mesmo processo.
Irá este romantismo poético provar ser mais realista do que o prévio realismo socialista? Não sabemos. O que sabemos é que o realismo da política do poder fracassou para atingir uma mudança social radical, e que a esperança está em quebrar a realidade, em estabelecer nossa própria realidade, nossa própria lógica, nossa própria linguagem, nossas próprias cores, nossa própria música, nosso próprio tempo, nosso próprio espaço. Este é o núcleo da luta, não somente contra “eles”, mas contra nós mesmos, que é o núcleo da ressonância zapatista.

John Holloway

HOLLOWAY, Jhon. Zapatismo urbano. Traduzido por Daniel Cunha. Disponível em: http://www.farj.org/








Freud e as Cinco Lições de Psicanálise ou o breviário da gênese e desenvolvimento de uma ciência

FREUD, S. (1909). Cinco Lições de Psicanálise. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol.11, 1980, P. 7-51.


“Prefácio para as cinco lições de psicanálise”, de Durval Marcondes, é embasado na exposição que Sigmund Freud realizou acerca de seus pressupostos teóricos, no ano de 1909, em uma conferência nos Estados Unidos. Sendo assim, é possível encontrar uma espécie de síntese que o próprio Freud tece em relação à sua obra, bem como o caminho que ele percorreu para que pudesse elaborar e formular seus principais conceitos psicanalíticos.
De forma bastante clara e sistematizada, Freud nos relata, a partir das experiências que vivenciou com seus pacientes, como se deu o início da psicanálise, a importância que Charcot e Breuer tiveram na confecção de suas idéias, a hipnose, a histeria e a neurose, o consciente e o inconsciente, a resistência, a repressão, os sonhos, os atos falhos, transferência e contratransferência, a sexualidade infantil, e os obstáculos que permeiam as idéias psicanalíticas.
Sendo assim, através do que foi mencionado anteriormente, Sigmund Freud tenta mostrar como os métodos psicanalíticos podem vir a contribuir no tratamento de indivíduos que apresentem algum tipo de neurose e conflitos psíquicos.
Mas, quais seriam esses métodos? Há de se salientar que, de início ele trabalha com o recurso da hipnose. No entanto, em sua visão, seria através da “escuta” que aqueles elementos inconscientes poderiam se tornar conscientes. Assim, paulatinamente, por meio dessa observação incansável e do trabalho terapêutico é que Freud defende sua teoria na medida em que constrói seus conceitos.
Depois de passar brevemente pelo método hipnótico, Freud conclui que este lhe parecia ineficaz, uma vez que o mesmo fazia com que o sintoma desaparecesse apenas momentaneamente. Foi durante esta experiência frustrada que ele vislumbrou a potencialidade de um método alternativo: a escuta. Segundo Freud na escuta, diferentemente do que ocorre na hipnose, o psicanalista tinha a possibilidade de “fazer o doente contar aquilo que ninguém, nem ele mesmo, sabia” (FREUD, 1980, p.24). Esse seria um modo de encontrar o caminho do complexo reprimido.
Na visão freudiana os conflitos psíquicos se originavam de possíveis traumas. Estas experiências emocionais traumáticas (reprimidas porque eram incompatíveis com as questões morais da própria personalidade) ficavam a nível inconsciente e se manifestavam por meio de sintomas orgânicos. Somando-se a isso, os histéricos e neuróticos, além de recordar acontecimentos dolorosos (que já lhe ocorreram há tempo), ainda se prendem a eles emocionalmente. Dito de outra forma, “não se desembaraçam do passado e alheiam-se por isso da realidade e do presente. Essa fixação da vida psíquica aos traumas patogênicos é um dos caracteres mais importantes da neurose e dos que têm maior significação prática” (FREUD, 1980, p.19).
Todavia, durante a experimentação prática do método em questão, Freud notou que seus pacientes desenvolviam certa dificuldade em processar os acontecimentos traumáticos que haviam vivenciado. Daí, então, os mesmos criariam uma espécie de mecanismo de defesa, impedindo com que as lembranças ligadas a tais acontecimentos viessem à luz do de suas consciências, o que Freud chamou de “resistência”.
Além disso, Sigmund Freud também se debruçou sobre a interpretação de seus próprios sonhos e o de seus pacientes. Pois, ali poderiam conter elementos inconscientes. Os sonhos se desmembram de modo “distorcido”, afinal essa seria uma maneira do ego lidar (de forma defensiva) com aqueles desejos reprimidos e ocultos (os de ordem sexual, por exemplo) que, no momento da vigília tolhem a sua passagem para a consciência.
Mas, não somente através da análise dos sonhos é possível revelar a parte oculta da mente e descobrir os seus segredos. Nessa direção, os denominados “atos falhos” que, em linhas gerais, são lapsos de linguagem, fuga temporária dos nomes próprios, brincar com objetos, dentre outros, são na verdade desejos reprimidos, impulsos, intenções que, devem ficar escondidos da própria consciência. Esse mecanismo pode vir a ocorrer tanto em neuróticos, como também em indivíduos normais.
Os desejos patogênicos, segundo os estudos freudianos, estão intimamente relacionados com os componentes instintivos eróticos. Isto se dá em virtude de que, a moralidade que recai sobre nossa “civilização” é tamanha que somos obrigados a reprimir a expressão e manifestação dos desejos sexuais. No entanto, tais desejos reprimidos não se iniciam na fase adulta ou na puberdade. Pois, os mesmo são de longa data: tendo sua origem ainda na infância. Sendo assim, somente tempos depois, é que o trauma (ocasionado pela repressão durante a infância) vem à tona através da manifestação de um sintoma.
A partir desses pressupostos é que Freud afirma que “a criança possui, desde o princípio, o instinto e as atividades sexuais” (FREUD, 1980, p. 39). Segundo ele, esta sexualidade infantil ocorreria por meio de sucessivas etapas e a satisfação é encontrada no próprio corpo, o que ele chamou de auto-erotismo. Além disso, toda criança teria uma espécie de disposição homossexual. Somente no final da puberdade é que o caráter sexual definitivo do sujeito estaria constituído. Logo em seguida esboça de maneira sucinta que “se quiserem, podem definir o tratamento psicanalítico como simples aperfeiçoamento educativo destinado a vencer resíduos infantis” (FREUD, 1980, p.45).
Entretanto, haveria naquele contexto, segundo Freud alguns obstáculos para a aceitação das idéias psicanalíticas. Assim, dentre esses entraves, ele nos chama atenção para o fato de que os processos mentais inconscientes ainda não são conhecidos e dignos de respeito por grande parte dos seres humanos. Contudo, seria o método da psicanálise o melhor caminho para o tratamento das repressões.
Portanto, em “Prefácio para cinco lições de psicanálise” pode-se encontrar um texto profundo, denso e ao mesmo tempo repleto de coerência, onde Freud sintetiza os seus caminhos percorridos para a construção e elaboração da idéia que ele tem de ser humano, ou seja, da psique humana. Através de seus diálogos, permeados de exemplos clínicos, é possível perceber o grau de envolvimento e de dedicação que ele teve para com a psicanálise. Ridicularizado por muitos, ovacionado por poucos. Foi em meio a esse contexto que, Freud desenvolveu seus conceitos, no final do século XIX e início do XX. Deixando, desse modo, um enorme legado para toda a humanidade. Pois, seus estudos ainda hoje são bastante pertinentes. Uma vez que, para se compreender homens e mulheres, todas as teorias e hipóteses existentes são, demasiadamente, insuficientes. Dada a complexidade dos mesmos.
Reconhecida a importância de Sigmund Freud, se torna evidente que não devemos levar em consideração apenas seus estudos a respeito da psique humana. Como já foi dito, o ser humano é por demais plural e complexo para ser entendido tão somente sob a ótica do inconsciente, dos impulsos e instintos sexuais, dentre outros pressupostos teóricos.

Fernanda Caroline de Melo Rodrigues


Notícias


Evento sobre o centenário da morte de Ferrer em Salvador-Bahia

SEMINÁRIO CEM ANOS SEM FERRER A PEDAGOGIA LIBERTÁRIA EM QUESTÃO



DIA 16 DE OUTUBRO (SEXTA-FEIRA)
19 às 22 HORAS

Maurício Tragtenberg, Leitor de Francisco Ferrer Por Doris Accioly
Educação anarquista X Pedagogia Libertária: a escola moderna na Bahia Por João Neto
DIA 17 DE OUTUBRO (SÁBADO)
9 às 12 HORAS
Educação libertária e a Biblioteca Comunitária José Oiticica Por Eduardo Nunes
Aristocracia Acadêmica Por Ricardo Liper
Realização: Instituto Sócio-ambiental de Valéria - ISVA
Local: FACED/UFBA
Lançamentos e Novidades da Editora Faísca.

A Faísca tem orgulho de anunciar três novos lançamentos, dois deles emco-edição com a editora Imaginário.
"A CIÊNCIA E A QUESTÃO VITAL DA REVOLUÇÃO" de Mikhail Bakunin * R$ 18,00 * 96 páginas * Imaginário / Faísca; "ANARQUISMO BÚLGARO EM ARMAS" de Michael Schmidt * R$ 8,00 * 80 páginas * Faísca; "A INTERNACIONAL: DOCUMENTOS E RECORDAÇÕES: VOL. I" de James Guillaume * R$ 32,00 * 232 páginas * Imaginário / Faísca.
Compre agora, entrando em contato com: http://br.mc657.mail.yahoo.com/mc/compose?to=vendasfaisca@riseup.net!


Dando continuidade ao seu projeto de lançamento de livros on-line, aFaísca Publicações apresenta seis novos lançamentos.São eles: "SOBRE A POLÍTICA DE ALIANÇAS-Problemas em torno da construção de um pólo libertário de luta" de José Antonio Gutiérrez Danton; "DA PERIFERIA PARA O CENTRO-Sujeito Revolucionário e Transformação Social" de Felipe Corrêa; "REVOLUÇÃO CUBANA-Mais à esquerda que o Castrismo" de Júnior Bellé; "POLÍTICA ANARQUISTA E AÇÃO DIRETA" de Rob Sparrow; "DE MOVIMENTO A PARTIDO POLÍTICO-Notas sobre alguns Movimentos Verdes Europeus" de Janet Biehl; "EM TORNO DA VIGÊNCIA DO SOCIALISMO LIBERTÁRIO-DEFINIÇÕES DE UM COMPANHEIRO" de Gerardo Gatti.
Para ver e baixar os livros, acesse:
http://www.alquimidia.org/faisca/index.php?mod=pagina&id=3905



Novas dissertações de mestrado sobre anarquismo são defendidas

No dia 11 de setembro de 2009, Carlos Eduardo Frankiw de Andrade defendeu a dissertação de mestrado em História “Blásfemos e sonhadores: ideologia, utopia e sociabilidades nas campanhas anarquistas em ‘A lanterna’ (1909-1916)”, sob a orientação da professora Zilda Grícoli Iokoi, junto ao programa de pós-graduação em História da USP.
E no dia 23 de setembro de 2009, Adonile Ancelmo Guimarães defendeu a dissertação de mestrado “Anarquismo e ação direta como estratégia ético-política (violência e persuasão na modernidade)”, sob a orientação da professora Jacy Alves de Seixas, junto ao programa de pós-graduação em História da UFU.
Nós do Eidos gostaríamos de parabenizar a ambos pelo excelente trabalho que desenvolveram em suas dissertações. Temos certeza que estes irão contribuir sobremaneira para compreensão da história do anarquismo.



CNJ suspende toque de recolher para menores em Patos de Minas

No dia 11 de setembro de 2009, O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou a suspensão do 'toque de recolher' para menores de idade em Patos de Minas, Minas Gerais. O toque de recolher havia sido determinado pelo juiz da Vara de Infância e Juventude da Comarca de Patos de Minas (MG), Joamar Gomes Vieira Nunes, e proibia crianças e adolescentes de circularem sozinhos na rua entre 23h e 6h.
A suspensão da ordem já veio tarde. Nós do Eidos concordamos com Bakunin e acreditamos que a liberdade das crianças e adolescentes não pertecem a seus pais, professores ou ao Estado, mas, sim a eles mesmos.


sábado, 29 de agosto de 2009

EIDOS INFO-ZINE # 18 ( PARTE 1)


Editorial


Caros Amigos


Há 73 anos, em 19 de julho de 1936, o general Francisco Franco deixou o Marrocos e se dirigiu para a Espanha com o objetivo de tomá-la. O povo, temendo a instalação de um governo fascista, se uniu e se organizou para deter o avanço das forças reacionárias. A partir desse momento se iniciam dois processos, que são distinguíveis, mas que estão conectados: a guerra civil e a revolução social.
Enquanto os fascistas e os republicanos lutam para conservar ou tomar o poder do Estado, os anarquistas, coadjuvados pelos socialistas, mobilizaram a população e desencadeiaram um processo revolucionário. A partir da organização sindical CNT - Conferderação Nacional do Trabalho - os anarquistas reunidos na FAI - Federação Anarquista Ibérica - iniciaram os procedimentos de expropriação e coletivização dos campos e fábricas.
Com base em núcleos descentralizados e federados por livre contrato, os operários e camponeses participaram diretamente da construção, em escala nacional, desse novo organismo econômico fundamentado nos princípios da autogestão. Os resultados dessas profundas mudanças apareceram rapidamente e logo se fizeram sentir. Terras e fábricas se tornaram produtivas, campo e cidade se aproximaram, saber popular e saber científico se fundiram e produção e consumo foram harmonizados.
Em 1936, a Espanha é, sem retórica alguma, um país de miséria. Realidade que se alterou substancialmente a partir desta revolução social. Pela primeira vez em sua história, o povo espanhol conseguiu senão o luxo, pelo menos a abundância.
Todavia, os anarquistas espanhóis estavam conscientes de que a construção da sociedade livre e igualitária não poderia, e nem deveria, ser apenas um processo de transformação econômica, por mais profunda que esta última fosse. Sabidos disso se esforçaram ao máximo para reformar a educação, oferecendo aos alunos, em sua maioria filhos de operários, um modelo de ensino e aprendizagem baseado na pedagogia libertária, que tinha por objetivo formar um indivíduo, ao mesmo tempo, independente e solidário.Trabalharam também para subverter as relações entre os gêneros e criar uma nova moral sexual, onde homens e mulheres teriam os mesmos direitos e deveres. Para tanto incentivaram o amor livre, a maternidade voluntária, a legalização do aborto e a dissolução do casamento monogâmico.
Esses são apenas alguns, dentre vários outros, projetos idealizados e implementados pelos anarquistas nesse período. Tudo isso deixa bem claro que uma sociedade que mereça ser chamada de socialista deve fomentar não só as relações econômicas, mas também as relações culturais.
Longe de assistir a apenas mais uma guerra civil, a Espanha, em 1936, assistiu a uma verdadeira revolução social. Revolução que seria progressivamente destruída nos anos de 1938 e 1939 por uma aliança internacional de forças políticas que congregava desde estalinistas até liberais, passando por nazistas e fascistas, que levou Franco ao poder.
Ao analisar as várias invenções libertárias surgidas na Espanha de 1936, somos surpreendidos, quase que de imediato, por uma pergunta: Ora, por que este importante episódio histórico é tão pouco conhecido?
Para grande parte da esquerda, atualmente imersa no cretinismo parlamentar e afundada no lodo do oportunismo político, a memória da Revolução Espanhola é insuportável. Todavia, uma vez que a credibilidade das instituições políticas, incluindo ai as de esquerda, se encontra em um rápido declínio junto a população, existe uma oportunidade para o anarquismo ressurgir e se fortalecer.
De qualquer modo, as possibilidades históricas que foram abertas pelo movimento libertário espanhol de 1936 estão dadas e se tornam cada vez mais conhecidas, permitindo, assim, vislumbrar outras alternativas para a nossa sociedade atual, tão carente de esperanças. Agora só resta saber que mundo afinal de contas nós queremos.
Conscientes de tais questões, nós do Eidos decidimos que o número 18 desta edição deveria ser dedicado a este importante episódio da história do movimento anarquista e do movimento operário internacional. Nesse sentido, os artigos publicados neste número trazem uma visão panorâmica sobre os vários experimentos libertários que foram ensaiados na economia, política, educação e sexualidade durante o breve, porém intenso, verão de anarquia vivenciado na Espanha de 1936. A despeito da falta de originalidade na seleção dos textos, haja vista que já foram publicados e são amplamente conhecidos, eles servem como uma primeira leitura para aqueles que ainda não estão familiarizados com o tema.
Além destes trabalhos, o Eidos n° 18 traz um artigo de Thiago Lemos Silva abordando o ingresso das mulheres no movimento anarquista brasileiro e, ao mesmo tempo, problematizando o aporte feminino no processo de construção da cultura política libertária. E por fim temos a publicação da resenha de Fernanda Caroline de Melo Rodrigues sobre o fascinante filme de Hans Huston sobre a vida e a obra de Freud.
E por falar em datas importantes, neste mês o Eidos completa nove anos de idade. Isso mesmo! Há quase uma década, o Eidos vem anarquizando Patos de Minas e virando a capital do milho de ponta a cabeça. Que o Eidos viva, no mínimo, mais nove anos.

Boa leitura e anarquizem!

Contatos

Fernanda Caroline de Melo Rodrigues: fernandaanarquista@yahoo.com.br
Thiago Lemos Silva: thiagobakunin@yahoo.com.br



A Prática da Autogestão Econômico-Social na Espanha

A Oposição Operária dos anos 20 na URSS, a Rebelião de Kronstadt (1921), a Revolução Makhnovista na Ucrânia (1918-1921) e as rebeliões na Hungria, Polônia e Tchecoslováquia representam a prática da autogestão das lutas pelo proletariado, nas quais sempre ressurgem as reivindicações de controle operário da produção, autonomia sindical e dos conselhos operários e rejeição da ditadura do partido único.
O movimento eurocomunista, no que tem de positivo, rechaça também a idéia da ditadura do partido único e do atrelamento dos sindicatos a um estado proletário futuro em nome da ditadura do proletariado. Nesse sentido representa uma continuidade das lutas referidas acima.
É na Espanha, no período 1936-39, que se dará, em 80% do país, a prática da autogestão das lutas operárias contra o fascismo e o capitalismo e da coletivização das fábricas e das terras. Porém essa pratica será esmagada pela ação combinada do fascismo espanhol com a política do PC espanhol de repressão à esquerda não-vinculada à URSS.
A ditadura de Primo de Rivera caiu em 1931, após anos de lutas das várias correntes de esquerda, anarquistas, socialistas e comunistas. É proclamada a república, caindo logicamente a monarquia.
Após estrondosa vitória eleitoral, o governo republicano sente-se com apoio social para efetuar a reforma agrária, sendo que apenas 1% da classe dominante (latifundiários e burguesia) detinha 51% da terra. A 19 de julho de 1936 se dá a reação da classe dominante através de um levante comandado por Franco. Imediatamente, os trabalhadores saem à rua e, através de suas organizações sindicais, armam-se para resistir ao golpe de Estado fascista.
A Espanha parte-se em duas: de um lado estão os nacionalistas, apoiados por Hitler e Mussolini; de outro, o governo republicano, abrangendo liberais, comunistas, socialistas e anarquistas. O golpe de Estado desfechado pela direita não consegue sucesso em metade da Espanha, notadamente na Catalunha.
Coloca-se, então, a questão: vitória na guerra civil contra Franco e posteriormente pensar-se em socialização, ou ao contrário, a socialização dos meios de produção, a revolução social como um instrumento de mobilização dos trabalhadores para a vitória contra Franco?
O proletariado espanhol não espera. Coletiviza as terras, as fábricas e os meios de transporte, resultado da decisão de uma seção plenária regional da Confederação Nacional do Trabalho (CNT), realizada em Madri a 30-10-1933: “Declaramos que se triunfarem as tendências fascistas e por esse ou outro motivo se produzir uma comoção popular, a CNT tem o dever de impulsionar os desejos populares para plasmar na realidade sua finalidade comunista-libertária”.
Mais ainda, essa seção plenária propõe “que se crie uma comissão de estudos econômicos que recolha toda documentação possível sobre a economia espanhola e elabore um plano construtivo imediato”.
Na época, a CNT possuía 2 milhões de trabalhadores filiados, e as Juventudes Libertárias contavam com 100 mil filiados.
O programa de coletivização das terras contou com a adesão de mais de 90% dos trabalhadores rurais, que se apossaram das terras, especialmente pelo fato de industriais e latifundiários terem se refugiado no Exterior. A 5 de setembro de 1936 realizou-se um congresso regional de camponeses, no qual se resolveu que a coletivização das terras seria dirigida pelos sindicatos. Os bens dos latifundiários e terras seriam coletivizados. Tais medidas transformaram-se em lei a 7-10-1936, quando o governo republicano confiscou sem indenização os bens dos proprietários comprometidos com o levante fascista.
A tradição de coletivismo agrário na Espanha muito contribuiu para tais medidas. Desde o início, a grande maioria dos trabalhadores da terra integrou-se espontaneamente às coletivizações. Efetuou-se uma aliança de classe entre os camponeses que coletivizaram as terras – de fascistas e não-fascistas, desde que fossem proprietários – e o proletariado urbano, que começara a socializar os meios de produção e os transportes públicos.
Em cada aldeia, uma assembléia geral de camponeses elegia os membros do comitê administrativo. Todos os homens aptos entre 18 e 60 anos tinham de trabalhar. Os camponeses organizavam-se em grupos de doze, encabeçados por um delegado, também camponês, e cada equipe se responsabilizava por uma zona de cultivo ou uma função, conforme o tipo de trabalho e idade de seus membros.
Todas as noites, o comitê administrativo se reunia com os delegados dos diversos grupos. Sobre os assuntos de administração local, a comuna reunia os trabalhadores numa assembléia geral, na qual tudo era discutido e resolvido.
Tudo era propriedade comum, exceto roupas, economias pessoais, animais domésticos, áreas de jardim e aves destinadas ao consumo. Coureiros, sapateiros e demais artesãos agrupavam-se em coletividades. As ovelhas da comunidade eram divididas em rebanhos de centenas de cabeças, confiadas a pastores e distribuídas pelas montanhas, racionalmente.
Estabeleceu-se uma remuneração fixa de acordo com as necessidades do grupo familiar. Cada chefe de família recebia por jornada de trabalho um bônus em pesetas que podia trocar por artigos de consumo nas lojas comunais. O saldo era depositado numa reserva individual e o interessado solicitava, se necessário, uma quantia limitada para gastos pessoais.
Assistência pública, eletricidade e medicamentos eram gratuitos, bem como o amparo à velhice. A escola era obrigatória aos menores de 14 anos, impedidos de trabalhar manualmente.
Camponeses que não quisessem integrar-se às coletividades não eram obrigados a fazê-lo; podiam participar dos trabalhos da comuna e enviar seus produtos aos armazéns comunais.
As comunas reuniram-se em federações cantonais e estas em federações regionais. Todas as terras de uma federacão cantonal formavam um só território. Foram criadas caixas de compensação para auxiliar as coletividades mais atrasadas tecnológica e economicamente.
Esse sistema implantou-se de forma global em Aragão, onde os trabalhadores agrícolas criaram, aí, um poder de base inédito na história da República, estimulados pelo avanço da Coluna Durruti, uma milícia libertária que combatia os fascistas na frente norte.
Constituíram-se em Aragão cerca de 450 coletividades que agrupavam 500 mil camponeses; na região do Levante, a mais rica da Espanha, formaram-se 900 coletividades; em Castilha foram criadas 300 coletividades integradas por 100 mil associados. O processo de coletivização atingia de Extremadura até parte da Andaluzia.
A autogestão agrícola era praticada em grandes superfícies com a supervisão de engenheiros agrônomos, aumentando em 50% o rendimento da terra; diversificaram-se os cultivos, iniciaram-se obras de irrigação e criaram-se escolas técnicas rurais e granjas piloto.
Esboçou-se um planejamento econômico com base nas estatísticas de produção e consumo que as coletividades entregavam aos comitês cantonais e estas aos comitês regionais, que, por sua vez, integravam-se inter-regionalmente.
A autogestão industrial iniciara-se, especialmente na Catalunha, região mais industrializada da Espanha. As fábricas foram postas a funcionar pelos trabalhadores, que administravam as empresas formando comitês revolucionários, sem ajuda ou ingerência do Estado.
Contrariamente ao que se deu na Revolução Russa, a Revolução na Espanha contou com a adesão livre dos técnicos. Daí realizar-se em Barcelona, em 1936, um congresso sindical, no qual estavam representados 600 mil operários, com a finalidade de ampliar a socialização da indústria. Um decreto de 24-10-36 do governo catalão oficializou a autogestão operária.
Foram socializadas as fábricas com mais de 100 pessoas, sendo os proprietários declarados “ociosos” por um tribunal popular. Cada empresa era dirigida por um comitê de administração, composto por 15 membros das diversas seções, eleitos pelos trabalhadores em assembléia geral, com mandato de dois anos. Esse comitê podia ser destituído pela assembléia geral e pelo conselho geral do setor industrial específico, este composto por quatro representantes dos comitês de administração, oito dos sindicatos operários e quatro técnicos nomeados pelo organismo tutelar.
Cabia ao comitê de administração a organização do trabalho e a fixação dos salários. O desajuste entre as empresas coletivizadas prósperas e as mais pobres em equipamento e em trabalhadores semi-qualificados ou qualificados era corrigido mediante a criação de uma casa de compensação à qual cabia a distribuição equitativa dos recursos.
Na Catalunha, trabalhadores e técnicos trabalhavam na criação de uma indústria de material bélico. As mulheres operárias constituíam a maioria da mão-de-obra, em razão de os homens válidos estarem incorporados, em sua maior parte, às milícias na frente de guerra.
Porém esse processo autogestionário começa a ser sabotado em plena guerra civil contra Franco. O Estado controlava os bancos e estes retiveram recursos de muitas coletividades.
O ministro da Agricultura, Uribe, do PC espanhol, ao mesmo tempo que legalizou as coletivizações das terras por decreto (16-3-36), incitou os camponeses a não entrarem nelas, em discurso de dezembro de 1936 dirigido aos pequenos proprietários agrícolas, assegurando que as armas do Estado e do PCE estava à disposição deles. Os fertilizantes importados, negados às coletividades, ele entregara aos pequenos proprietários. Transferira o abastecimento de Barcelona dos sindicatos aos comerciantes privados.
O PC da Catalunha agrupou em sindicato único os pequenos proprietários de terra, aos quais uniram-se os comerciantes e latifundiários, aparentemente conformados com a nova situação.
A 11.ª Divisão, dirigida por Lister, do PCE, destruiu com seus tanques as coletividades rurais e dissolveu os comitês administrativos; dispersou também o gado.
A imprensa do PCE clamava contra a “coletivização forçada”! Na área industrial, a imprensa desenvolveu uma campanha colocando em dúvida a honestidade dos comitês de fábrica nas empresas socializadas; o governo republicano negou-se a conceder créditos às empresas autogeridas, chegando mesmo a privá-las de matérias primas, vitais a seu funcionamento.
O governo republicano, já dominado pelo PCE, importa os uniformes militares, em lugar de solicitá-los às coletividades têxteis da Catalunha. E com o decreto de 11-9-1938 dá o golpe final na autogestão, militarizando as empresas e colocando-as sob a direção de inspetores membros do PCE.
A autogestão, que dominara 70% do território espanhol, englobando empresas industriais e agrícolas e escolas, provara ser uma prática inerente à classe operária quando a autogestão das lutas desta atinge determinado estágio.
A repressão aos movimentos operários de autogestão das duas lutas e de autogestão econômico-social se dá através de partidos políticos ou sindicatos ou pelo aparelho do Estado, tenha este o nome que tiver burguês, liberal, operário ou socialista.

Maurício Tragtenberg

Excerto de TRAGTENBERG, Maurício. Reflexões sobre o Socialismo .São Paulo, Editora Moderna, 1986, páginas 65 - 69.



A organização do conselho da cultura durante a Revolução Espanhola

Não cremos ser os primeiros a presumir que o fenômeno da instrução pública no regime capitalista se deve muito mais a necessidade que se tem na vida moderna de operários que saibam ler, escrever, calcular e etc., do que a um imperativo sinceramente cultural. De qualquer forma, a cultura no capitalismo é proporcionada em doses adequadas ao fim perseguido, manipulando-o e desviando-o no interesse das castas dominantes, em cujo proveito se orienta o ensino desde a escola primária até a universidade, sem contar os mil outros recursos culturais como o cinema, o teatro, o esporte, etc., por meio dos quais os dez mil de cima souberam dar bases legais, morais e materiais a seus privilégios e a escravização dos povos.
“O capital – afirma Ferdinand Fried – avalia a ciência a preço tão vil que considera as universidades nada mais que escolas profissionais onde se moldam forças melhores”.
A nova economia, como obra do esforço e da contribuição de todos – economia social e não economia de classe -, tem forçosamente que fomentar uma cultura verdadeira, sem outros fins que os do progresso e da elevação do homem ao nível de uma plena humanidade.
Referimo-nos nestas páginas ao organismo geral da nova economia; a cultura não entra propriamente neste terreno. Mas em nossa sociedade livre, que leva em conta o homem e não apenas o operário, não só nos alimentamos de pão, mas também de conhecimentos para superarmo-nos e para tornar a vida cada vez mais grata, confortável e nobre.
O organismo da cultura, estreitamente entrelaçado com os demais organismos da produção e da distribuição, forma-se também como entidade autônoma organizada de baixo para cima, desde a escola, com seu conselho administrativo integrado por mestres, pais e alunos, até o sindicato de professores, a reunião dos conselhos de escola de cada localidade ou circunscrição comunal, por exemplo, e o conselho local do ramo da cultura, onde se associam todos os sindicatos ou seções locais da cultura.
Vimos como em cada sindicato, em cada conselho de ramo, em cada conselho local da economia, etc., há instituições especializadas de ensino cuja sustentação depende dos organismos econômicos a cujos fins servem. Como exemplo, em 1920 havia 32 escolas de sericicultura em trinta cidades de Albacete, Alicante, Badajoz, Burgos, Cáceres, Canárias, Gerona, Granada, Huesca, Marruecos, Murcia, Palencia, Sevilha, Tarragona, Toledo, Valencia e Zaragoza. Todo pessoal docente associa-se em seus conselhos escolares, a seguir em seus sindicatos de professores de institutos especiais, por fim no conselho do ramo da cultura ou então nos conselhos do ramo industrial a cujos fim servem.
As universidades não terão a sua atual estrutura. As faculdades de química, por exemplo, passarão ao conselho do ramo da indústria química, as faculdades de engenharia irão depender dos respectivos conselhos de ramo; faculdades como a de jurisprudência serão suprimidas, passando a sua parte útil a depender de outras instituições de pesquisa e estudo.
As bibliotecas públicas, os museus de arte, os arquivos, os edifícios históricos, igualmente organizar-se-ão no conselho da cultura, primeiro com os seus conselhos, a seguir com os seus sindicatos ou seções.
Os espetáculos públicos, apropriados hoje em dia unicamente para render lucros ao capitalismo e explorados em quanto tal, serão instrumentos de cultura e se adaptarão a estes objetivos. O teatro, o cinema, o esporte, etc., serão organismos integrantes do campo da cultura e pela primeira vez cumprirão amplamente com suas incumbências.
Neste aspecto, a arte, privilégio de seletas e opulentas minorias, chegará a todos os espíritos acessíveis e enobrecerá a existência daqueles que a ela são sensíveis. Há grandes possibilidades de se darem já ao povo espetáculos dignos e belos de teatro, cinema, música etc.
A revolução, aqui, assim como no ensino em geral, logrará a mostrar imediatamente seus frutos. Boa parte do velho pessoal da burocracia, da magistratura, etc., encontrará na escola, tão deficiente na Espanha, um meio de assegurar-se honestamente a vida e ser útil a nova sociedade, se assim o desejar e se demonstrar a necessária capacitação.
Não somente se erradicará o analfabetismo, como também não haverá uma única criança que deixe de ingressar na vida equipada com verdadeiros conhecimentos técnicos para a indústria ou para a agricultura, ficando abertos a ela todos os caminhos para as mais elevadas especulações e pesquisas.
A revolução necessita de operários qualificados, camponeses de iniciativa, homens de base sólida; e a nova escola e as instituições especiais de ensino, de experimentação e de pesquisa fornecerão esta geração que nos falta. Com homens instruídos, conhecedores de seus ofícios, cientificamente formados, a Espanha deixará de ser o que é e poderá corresponder ao sonho de todos.
O capitalismo não pode sustentar o seu atual aparelho de instrução pública; a maior parte de seus orçamentos deve ser consagrada a força pública, aos diversos corpos de guarda, ao exército e a marinha. O professor é um pobre funcionário esquecido, que raia na miséria. A nova economia necessita de milhares de escolas a mais, de milhares de novos professores, de inúmeras escolas de artes e ofícios, de agricultura e de pecuária. Parte deste pessoal já existe, outro tanto pode formar-se em poucos anos.
Diego Abad de Santillan

Excerto de SANTILLAN, Diego Abad de. Organismo económico da revolução – a autogestão na revolução espanhola, São Paulo: Brasiliense, 1980. páginas 173-175.





“Es que no es digna la satisfacción de los instintos sexuales ?” :Amor, sexo e anarquia [Espanha, 1936]


Em janeiro de 1936, a revista anarquista Estudios, publicada mensalmente em Valência, na Espanha, inclui entre os inúmeros artigos que discutem questões de saúde e da moral, uma seção denominada "Consultório Psicossexual", aberta aos leitores. Através de cartas dirigidas ao Dr. Felix Martí Ibáñez, especialista em Sexologia, são apresentadas problemas sexuais, sentimentais e afetivos de várias ordens, aos quais o médico procura responder, tentando identificá-los a partir de sua especialidade.
O diálogo aberto entre o médico libertário e os seus leitores na revista é uma das muitas frentes em que ele se engaja, ao pôr em prática aquilo que considera sua tarefa principal : a reforma eugênica sexual, na Espanha revolucionária. Segundo ele e seus companheiros libertários, muitos dos quais também médicos, tratava-se de tirar o país do atraso secular em que se encontrava, criando as condições para a transformação dos hábitos da população, para a formação de uma juventude aberta para a vida, livre dos preconceitos e das repressões impostas pelo conservadorismo burguês e pelo obscurantismo religioso.
Focalizo os principais temas que emergem nas trocas e diálogos ocorridos neste espaço da revista, assim como no conjunto dos artigos aí publicados, entendendo que, ao abordar questões referentes à sexualidade, ao corpo e à moralidade, eles revelam a preocupação dos anarquistas em construir uma nova moral sexual e em transformar as relações de gênero no sentido da emancipação sexual tanto da mulher, quanto do homem. Para além de suas interpretações acerca dos problemas sexuais e amorosos, os libertários expõem suas práticas e experiências nessa área, constituídas num período, bastante denso de nossa história, isto é, durante o período da Revolução Espanhola.
Temos tido vários registros dos acontecimentos políticos, econômicos e sociais do período, já que se trata de um dos momentos mais interessantes do século 20, em se considerando as criações revolucionárias em múltiplos campos da vida humana, como as coletivizações das fábricas e dos campos e as inovações libertárias na educação e na área da saúde, em várias regiões da Espanha, entre 1936-1939.
Mais recentemente, alguns trabalhos ligados à área de estudos feministas, focalizam a experiência das mulheres revolucionárias, sua participação na esfera pública e as questões da moralidade para os anarquistas, durante o processo revolucionário. Martha Ackeslberg - Free Womem of Spain de 1991 (Indiana University Press) e Mary Nash Delfying Male Civilization : Womem in the Spanish Civil War, publicado em 1995 (Ardem Press) analisam a atuação das mulheres libertárias durante a Guerra Civil Espanhola, procurando perceber em que medida sua presença na esfera pública alterou de fato a dominação masculina, ou abalou os conceitos e valores tradicionais a respeito da divisão sexual dos papéis na sociedade. Mesmo que concluam pelo fracasso das propostas libertárias, esses livros mostram a grande desestabilização causada pela atuação dos anarquistas naquele período de profunda esperança, em que se anunciava a possibilidade de reorganização da sociedade em bases mais solidárias e criativas.
O objetivo maior deste trabalho é destacar o projeto libertário de construção de uma nova moral sexual, as formas de problematização dos temas apresentados e as respostas sugeridas, resgatando um debate histórico e experiências inovadoras que, como é de se supor, encontraram profundas dificuldades para serem implementadas, numa Espanha profundamente conservadora e religiosa. Ao mesmo tempo, os problemas levantados mostram a permanência não apenas das imagens e metáforas a partir das quais se constrói a experiência sexual, mas ainda a reincidência das dificuldades nesta área, encobertas por um profundo silêncio que apenas começa a ser quebrado em nosso tempo.
A reforma moral dos libertários
A Revolução Espanhola (1936-39) foi o momento privilegiado para que os anarquistas pusessem em prática várias de suas concepções a respeito da construção de novas formas de vida social. Certamente, desde sempre, eles procuraram implementar suas propostas de organização social, questionando o poder em todas as dimensões da vida em sociedade, defendendo a autogestão nas fábricas e no campo, construindo as "escolas modernas", praticando o amor livre, recusando o casamento civil e religioso, recusando a representação política, em nome da autonomia pessoal. As discussões em torno do amor e da sexualidade ganharam um maior espaço entre suas preocupações, já que seriam fundamentais para a construção de uma nova moral e de um novo homem, livre de preconceitos, dos tabus, das crenças obsoletas e das repressões sexuais.
Vários temas compõem o repertório das discussões que a revista apresenta mensalmente, entre 1934-36. "Nova Moral Sexual", "A Educação Sexual. A Puberdade", "O Instinto Sexual", "A Mulher e a Nova Moral", "O Pudor na Bíblia", "Prostitutas !", "Juventude e Liberdade", "O Culto Fálico na Roma Antiga", "Em torno do problema eugênico no Aborto", "Uma Utopia Sexual" são alguns dos sugestivos títulos dos artigos publicados, na grande maioria assinados por homens e por médicos. Uma das poucas escritoras da revista, aliás, é a libertária brasileira Maria Lacerda de Moura, já bastante conhecida em nossos meios.
Esses textos apontam para a construção da sociedade libertária, onde novas formas de amar, de viver a sexualidade, de se relacionar com o corpo, de conhecer o mundo e respeitar o próximo seriam possíveis. Para tanto seria necessário criar condições de esclarecimento sexual da população, através de cursos e programas de educação sexual, assim como da implantação de postos, estabelecimentos e outras instituições de atendimento prático.
Amor livre e plural, divórcio, maternidade consciente, aborto, fim da prostituição e criação de estabelecimentos de higiene para fins sexuais são algumas das propostas apresentadas pelos anarquistas, nessa direção.
Sugiro acompanhar por um momento alguns dos temas que emergem nas trocas de correspondência entre o Dr. Ibáñez e seus leitores, em geral, homens e mulheres de várias idades pertencentes ao mundo do trabalho e identificados com o anarquismo. A seção é aberta às cartas dos leitores em janeiro de 1936, afirmando-se como um espaço para consulta de problemas íntimos psicossexuais com o Dr. Ibáñez. A leitura das cartas enviadas ao longo do ano revela uma forte preocupação com o comportamento sexual das mulheres, seja na perspectiva dos companheiros e esposos que as escrevem, seja na das próprias mulheres. Contudo, isso não significa que os únicos temas abordados refiram-se à mulher, numa atividade explícita de indicar aos homens o caminho para introduzi-la à vida sexual, ou em outras palavras, para ensiná-la a ajustar-se às necessidades masculinas, como vemos nos manuais de "higiene do amor", publicados em vários países, no período. Trata-se de uma tentativa de promover a interação entre os casais, ou então, de ajudar o indivíduo a encontrar-se e resolver suas dificuldades a partir de conhecimentos bastante especializados na área da psicanálise e da sexologia, de Freud e de Havellock Ellis. Como afirma o Dr. Ibáñez, o consultório é uma espécie de santuário que visa trazer alívio não mais às "dores espirituais", mas às "dores sexuais".
Um dos temas mais freqüentes trazidos nas cartas refere-se à questão da incapacidade de amar das mulheres, ou da frigidez feminina. Assim, a primeira carta apresentada é escrita por um homem de 42 anos, casado há oito com uma mulher cinco anos mais jovem, lamentando seu fracasso em fazê-lo conseguir "o êxtase amoroso no ato sexual", dificuldade que se acentua após o nascimento do segundo filho.
As respostas do médico mostram as concepções médicas sobre o corpo e a sexualidade da mulher, no período. Destinam-se a trabalhadores(as) identificados com o anarquismo, o que se deduz pela maneira de apresentação dos leitores como "companheiros" ; aliás, o próprio médico se coloca como um anarquista revolucionário comprometido com a Revolução em curso. Discutindo o problema da frigidez feminina, o Dr. Ibáñez entende que há as causas endógenas e as exógenas. Estas remetem às dificuldades masculinas, como ejaculação precoce, ou impotência sexual relativa, ou ainda o uso de uma técnica sexual inadequada, que levaria à insatisfação sexual da mulher. Aconselha o doutor :"Examine objetivamente sua própria sexualidade, não apenas em sua constituição, mas em sua técnica", já que, "uma preparação amatória curta da mulher origina nela uma sobrecarga em sua sensibilidade", que não sendo satisfatória resulta numa grande frustração. Entre as causas endógenas da frigidez feminina, destaca as alterações endócrinas e sugere a consulta a um especialista. Aí afirma que esta frigidez depois do segundo filho é muito comum nas mulheres e tenta explicar :"a influência anestésica sobre a erótica feminina do nascimento do filho" pelo traumatismo do parto ; enquanto defesa psíquica pelo medo da gravidez ; pelo deslocamento do potencial efetivo da mãe para o filho.
Em outra carta revelando a mesma dificuldade em relação ao orgasmo feminino, o médico sugere que o homem considere o psiquismo feminino. As fantasias criadas desde a adolescência em relação ao ato sexual e ao parceiro provocam um choque no embate com a realidade ; portanto, propõe a reversão do quadro apresentado com a ajuda de um psicólogo para que a mulher reverta "as imagens eróticas indesejáveis e as substitua pelas normais, na construção de uma sensibilidade amorosa normal".
Esboçando um histórico da "evolução erótica da mulher", recorta três momentos fundamentais : uma fase de auto-erotismo, em que a menina se ama e em que passa muitas horas se adorando no espelho, ou mimando a boneca em que se projeta a si mesma, numa atitude totalmente narcisista. A segunda fase, a da "projeção parental da sexualidade", marcada pelos complexos de Édipo e de Electra, é um momento heteroerótico, em que a jovem passa a se apaixonar também pelos outros. Já a terceira fase, a da "especificidade erótica", o objeto de desejo desloca-se para homens específicos. Finalmente, a mulher chega ao casamento e aí emergem os problemas.
É interessante observar a preocupação feminista do médico que, ao contrário do pensamento médico conservador do período, entende que a mulher deve ter direito ao prazer sexual, tema recorrente na literatura anarquista desde o século anterior. Por isso, prega ele aos seus leitores do sexo masculino:
"Se queremos ser homens livres, temos de desejar a liberdade sexual para a mulher em suas experiências amorosas; se desejamos ser revolucionários temos de começar por revolucionar nosso espírito dominando nossos egoísmos."
Outro tema de discussão remete à menopausa. Respondendo ao leitor aflito diante da ausência de orgasmo da esposa e diante de sua entrada na menopausa aos 40 anos, o Dr. Ibáñez informa que assim "como sucede com sua esposa, não é um fato infrequente em nosso país.”.
A menopausa é identificada pelo médico como "o ocaso da sexualidade feminina", momento em que a mulher deixa de ter desejo e capacidade sexuais, que no homem não terão data marcada para acabar. A menopausa, isto é, o momento em que a mulher deixa de ter condições de engravidar, é confundida com um período em que morre para a vida sexual, no imaginário médico do período.
Analisando cautelosamente o caso exposto na carta pelo marido angustiado, o médico observa que com um "horizonte sexual" tão triste, pois ela teve cinco partos e nenhum "êxtase" em sua experiência sexual, ela só poderia querer encurtar o "indesejável caminho erótico", e chegar ao "crepúsculo final de uma sexualidade dolorida e insatisfeita". Daí a menopausa precoce.
Também dos problemas sexuais masculinos se ocupa o médico anarquista, a exemplo da impotência. De um lado, critica o esposo que, num segundo casamento, como diz em carta, só consegue ter prazer ao projetar a imagem da primeira esposa, já falecida, sobre a segunda, durante a cópula. A este comportamento denomina de "adultério espiritual" e recomenda uma maior concentração nas qualidades da esposa atual para um desempenho mais positivo.
Mas, a análise se torna mais interessante quando ele discute o "homossexualismo psicológico", a partir de outro caso exposto em carta. Trata-se de um trabalhador que, passando a freqüentar a casa do amigo, estabelece uma relação íntima com sua esposa, de certo modo, com sua própria conivência, já que cada vez mais o marido deixa espaço livre para o amigo. Ao final, ele deixa sua esposa, enquanto o outro busca explicação para o caso. Para o médico, trata-se de um caso de "homossexualismo psicológico", propiciado pelo adultério, já que estando vinculado à esposa, o marido consegue atrair outro homem para dentro de sua casa e indireta ou simbolicamente relaciona-se com este. Finalmente, algumas cartas colocam o problema de companheiros fiéis, mas muito interessados pelas figuras femininas nas ocasiões sociais. Ao que o Dr. Ibáñez define como erotomania, comportamento doentio decorrente de um forte sentimento de inferioridade por parte do homem.
"Negócios do aborto"
O tema da legalização do aborto se destaca como um dos mais importantes na reforma eugênica promovida pela Revolução na figura do Dr. Ibáñez, diretor geral do Sanidad e Asistencia Social da Generalidad da Catalunha, ao lado de Federica Montseny, que se torna Ministra da Saúde durante o governo de Largo Caballero. Em dezembro de 1936, é estabelecido um decreto que permite a interrupção da gravidez, "seja qual for a causa que o motive, dando um golpe assim ao curandeirismo assassino e dotando o proletariado de um modo científico e eficaz de controlar sua natalidade, sem temor aos riscos que ele poderia trazer..."
Demonstrando o avanço da medida, já conhecida na Suíça, desde 1916, na Checoslováquia, no Japão e na Rússia, durante os anos 20, o médico anuncia sua adoção na Catalunha, enquanto uma das principais conquistas revolucionárias para as mulheres. Condenando as medidas repressivas do aborto que levavam ao infanticídio e à morte da mulher proletária, afirma que deste modo “o aborto salta da clandestinidade e incompetência em que foi verificado até hoje, e adquire uma alta categoria biológica e social, ao converter-se em instrumento eugênico ao serviço do proletariado.”
Defendendo a importância da "reforma radical", o doutor mostra que ela permitirá paradoxalmente diminuir a taxa de abortos, já que ao lado dos centros destinados a ele, funcionarão outros destinados à fusão popular de recursos anticoncepcionais, "pois nosso ideal eugênico é que a mulher possua uma sólida cultura eugênica, que lhe permita evitar o aborto e não recorrer a ele senão como último recurso (...)".
Além disso, a reforma eugênica do aborto, tirando-o das mãos dos charlatães e traficantes de remédios, permitirá reduzir a mortalidade feminina por esta causa. Nesse sentido, ele entende que o projeto valoriza a maternidade e consagra o direito da mulher ao seu próprio corpo:
"Saudemos todos, irmãs e irmãos proletários, a reforma eugênica do aborto desde a Consejería de Sanidad y Asistencia Social (...). Liberadas sexualmente, as mulheres proletárias serão no futuro as criadoras dessa nova geração de trabalhadores, prenúncios românticos da nova era."
Ao fazer um balanço das criações revolucionárias da Consejería de Sanidad y Asistencia Social, na Catalunha, nos meses em que a CNT participa do Consejo de Gobierno, e elogiando fortemente a atuação de Federica Montseny, o médico destaca a descentralização da Sanidad e a municipalização dos médicos ; a constituição de conselhos locais e da comarca, a criação de hospitais intermunicipais ; a "socialterapia", isto é, a reeducação dos doentes, asilados e crianças em centros especiais :"nossos estabelecimentos para crianças substituíram o regime carcerário de antes pela vida livre em regime aberto, com o que o sol que irrompe abundantemente nos estabelecimentos simboliza também a luz que penetra nas velhas normas."
A defesa da "maternidade consciente" a exemplo do que ocorre na Maternidad de las Corts, caminho para os centros da natalidade é outro dos pontos destacados, assim como a instauração dos "liberatórios da prostituição", casas de recolhimento das mulheres. Vale notar a crítica às teorias "pseudocientíficas" do Dr. Lombroso. Finalmente, o médico defende a criação de consultórios psicossexuais de orientação juvenil e do Instituto de Ciências Sexuais da Catalunha, onde seriam realizados estudos e pesquisas sobre sexualidade.
Finalmente, os anarquistas se ocuparam da criação de espaços do prazer sexual. É o que aparece no artigo "Uma Utopia Sexual", publicado em janeiro de 1937.
"Uma Utopia Sexual"
O autor, Mariano Gallardo, inicia o artigo perguntando-se por que se critica a busca de prazer sexual :"Es que no es digna la satisfacción de los instintos sexuales ?"
Critica a repressão sexual e afirma suas intenções :"Precisamente o que aspiro com meus estudos sexuais é a criação de uma ética sexual nova e livre, que torne desnecessária a prostituição."
Para acabar com ela, propõe a criação de estabelecimentos sexuais higiênicos, onde homens e mulheres acorreriam quando necessitados. Ele imagina o "motel" de seus sonhos :
"Nesses estabelecimentos não haveria como população permanente senão o pessoal médico e os encarregados do estabelecimento (...).O pessoal que o freqüentaria seria "movediço e transeunte", formado por indivíduos de ambos os sexos,sãos e em idade de razão e de expansão voluptuosa."
Os médicos realizariam exames de prevenção e facilitariam o acesso aos métodos contraceptivos. Haveria camas nos estabelecimentos e outros objetos considerados necessários para o fim a que se destinam. Finalmente, se viessem além de casais, homens e mulheres desacompanhados, formar-se-iam dentro do estabelecimento, "casais de amantes para um momento. (...) A mulher ou o homem que não encontrassem ninguém de seu gosto, voltariam outro dia (...)”.
Concluindo, Gallardo defende-se ante a possível crítica ao projeto, observando estar comprovado que a necessidade sexual nem sempre está unida ao amor e que a juventude não pode receber educação sexual sem os meios para usufruí-la.
Finalizando : entre fracassos e vitórias...
Os anarquistas foram vítimas de muitas críticas, sobretudo por parte dos historiadores marxistas que, ao abrirem as portas para sua entrada na memória histórica, os condenaram aos porões por incapacidade política, romantismo ingênuo e esperança utópica, vale dizer, impossível. Ao mesmo tempo, num momento marcado por esta historiografia, para a qual os temas da sexualidade, do corpo, da mulher não tinham a mesma importância que os temas políticos e econômicos, o projeto de reforma moral e sexual dos libertários certamente passava bastante despercebido ou desvalorizado enquanto puro romantismo. Certamente, cada sociedade escolhe o passado que quer celebrar e a partir de que registros pretende inventá-lo.
Contudo, algumas observações podem nos levar a refletir um pouco mais de profundidade sobre o projeto social e moral libertário. Ao colocar- se como um pensamento "de fora" e excêntrico, o anarquismo desloca o foco de investimento estratégico do campo da política institucional para o da moral, afirmando que a luta se volta contra todas as formas de poder constitutivas das relações sociais e sexuais.
Para Malatesta, aliás, o anarquismo resulta da vontade pessoal e coletiva, de um profundo amor pelo próximo dificilmente captado pelas teorias científicas. Criticando violentamente as instituições, o anarquismo dissolve os enquadramentos identitários que normatizam e sedentarizam. A liberdade é, assim, ponto capital nesse pensamento que rejeita a separação entre meios e fins. Nesse sentido, entende que o amor e desejo escapam totalmente das codificações morais instituídas pela sociedade burguesa desde o século 19. É claro que, em se tratando de uma moral construída, sobretudo nos meios operários, os anarquistas enfrentaram enormes críticas e dificuldades e, aliás, eles mesmos as enfrentaram com a lucidez de sempre. Assim, discutindo o amor livre, "tema delicado e difícil", uma das principais figuras do anarquismo espanhol, Federica Montseny se pergunta em "A Mulher, Problema do Homem" artigo publicado na Revista Blanca, em 1932 :"quem, até agora, colocou em prática o verdadeiro amor livre ? que não seja apenas deixar de casar-se no religioso e no civil e mesmo sabendo que o matrimônio é o túmulo do amor."
A relação entre os gêneros " continua sendo a união subordinada de uma mulher a um homem, união mais penosa, mais coatora da liberdade feminina, porque ao prescindir da aprovação social, a deixa, na debilidade de sua desorientação e do equívoco moral em que ambas as morais a colocam, mais à mercê do carão. " O esforço para libertar-se do laço matrimonial"a oferece temerosa e indefesa ao capricho masculino e ante a animosidade familiar e social." Sem falar "desse outro amor livre, que consiste em provar mulheres, abandonando- as ao cabo de dois meses com a insolência triunfante de sedutor."; ou de uma forma disfarçada de prostituição que praticam algumas mulheres, diz ela. E qual será o futuro do amor, pergunta, deixando claro sua recusa do "comunismo amoroso", preconizado por Armand na França. Também acha difícil responder, pois em cada indivíduo, "o amor tem uma manifestação, uma variedade e um conceito”. Montseny entende que a modernização da sociedade liberou a mulher do domínio do patriarca para colocá-la nas fábricas e oficinas sob o domínio do patrão. Sem modelos, passou-se da mulher francesa para o tipo americano, em que"o cabelo curto iguala as cabeças." Desanimada, diz que não vê solução para o problema do dois sexos no mundo em que vive, embora aponte"o individualizamento do amor " como saída. E este exige uma nova mulher, mas também um novo homem. Os anarquistas preparam o amor livre, criticando a prisão representada pelo casamento monogâmico indissolúvel ; defenderam o divórcio ; procuraram resolver o problema da prostituição criando "liberatórios da prostituição", casas de recolhimento para as mulheres desamparadas. Entenderam que deveria haver espaços especiais para o sexo livre, entendido enquanto uma necessidade humana ; legalizaram o aborto, afirmando deste modo poder valorizar a maternidade e deixar com que a mulher decidisse da livre opção pela gravidez.
Muitas décadas depois, salta à vista o pioneirismo de suas propostas, muitas das quais foram incorporadas e são hoje amplamente praticadas em nossa sociedade, sobretudo nos setores sociais voltados à critica do autoritarismo em suas práticas cotidianas. Outros pontos, a exemplo do aborto e da prostituição, ainda são feridas abertas em nosso mundo e as respostas oferecidas hoje ainda estão muito aquém do patamar estabelecido por aqueles revolucionários nos anos 20 e 30. De qualquer modo, as possibilidades históricas estão dadas e se tornam cada vez mais conhecidas, permitindo ampliar o repertório de respostas possíveis que nossa sociedade quer conhecer. Resta saber que mundo, afinal, queremos.
Margareth Rago

Originalmente publicado em: Letra livre n° 33, ano 06 - 2002.

EIDOS INFO-ZINE # 18 ( PARTE 2)


Os anarquistas tem dois sexos: a feminização da cultura política libertária

Em São Paulo nos primórdios do século XX, o alto número de imigrantes europeus, a nascente industrialização, as altas jornadas de trabalho, o emprego da mão de obra infantil e a super exploração do trabalho feminino instituíram e estruturaram uma conjuntura no interior da qual o anarquismo se firmou e foi difundido.
Aderindo ao anarquismo sindicalista ou ao anarco-comunismo, as duas correntes mais expressivas do movimento anarquista de São Paulo, os operários e operárias lançaram mão dos diferentes métodos e estratégias de ação direta para resistir e protestar contra os abusos do patronato e Estado brasileiros.
Juntos, homens e mulheres militaram no movimento anarquista, divulgaram as suas idéias na imprensa operária, falaram em público nos comícios, praticaram atos de sabotagem, realizaram boicotes e participaram de greves, enfim compartilharam dessa cultura política libertária.
Mas, uma pergunta persiste, essas mulheres ao ingressarem no movimento operário e adotarem o anarquismo como arma ideológica na sua luta política, apenas repetiam e copiavam os homens? Ou elas iam além, e criavam e inovavam?
Nesse artigo, apresentaremos uma análise sobre a participação das mulheres no movimento anarquista brasileiro, em São Paulo, nas duas primeiras décadas do século XX. Para tanto, tomaremos emprestados alguns conceitos do filósofo alemão Georg Simmel. Balizados pelos conceitos de cultura feminina e feminização da cultura, iremos analisar a ação das mulheres anarquistas, procurando perceber em que medida a sua militância alterou a face até então assumida por esse movimento.
Georg Simmel, no ensaio “A Cultura Feminina”, publicado no livro “A filosofia do Amor”, desenvolve reflexões bastante interessantes e instigantes a respeito do impacto causado pelo ingresso massivo das mulheres na economia, arte, direito e medicina.Embora não trabalhe especificamente com objeto que  elencamos nesse trabalho, parece que Simmel fornece elementos teórico-conceituais importantes para poder refletir sobre o processo feminização da cultura política libertária.
Diante dos movimentos femininos e feministas, que apareciam, ou melhor, irrompiam, por toda Europa questionando o machismo e colocando a emancipação das mulheres em questão Simmel se perguntava quais seriam os impactos disso na cultura ocidental. Já que:

Será que vão nascer de semelhante movimento produções inteiramente novas, qualitativamente distintas das precedentes e que não se limitem a multiplicar as antigas? O reino dos conteúdos de cultura será objetivamente ampliado com isso? Não se vai se contentar com copiar, vai se inventar? (SIMMEL, 1993, p.70)


Para Simmel a cultura não é uma faculdade exterior em relação ao homem e a mulher,e, que portanto a cultura tem sexo. Partindo de tal premissa, o pensador alemão, com toda perspicácia que lhe é inerente, percebeu que a cultura ocidental, com raríssimas exceções, tem assumido um conteúdo eminentemente masculino. A indústria, o comércio, a ciência, a administração civil e a religião foram criadas pelos homens, e a sua manutenção exige ou demanda forças especificamente masculinas.
Certas características, diz Simmel, que singularizam e identificam o espírito masculino na sua dimensão psicológica, tais como a dissociação entre objetividade e subjetividade estão na base da cultura ocidental. De acordo com ele:

(...) toda divisão do trabalho bastante avançada significa que o sujeito se separa o de seu trabalho, o qual se integra então em contexto objetivo, em que se dobra ás exigências de uma totalidade impessoal, enquanto os interesses subjetivos e os movimentos interiores do ser humano constituem, por sua vez, um mundo próprio...Se essa possibilidade psicológica não subsistisse, nossa cultura, construída sobre a mais extrema divisão do trabalho seria... impossível (...). ( SIMMEL, 1993, p.73)


Já a identidade das mulheres, construída a partir do âmbito doméstico e do lar “baseia-se nessa unidade, nessa solidariedade imediata, orgância, entre a pessoa e cada uma de suas manifestações, em suma na indivisibilidade do eu” (SIMMEL, 1993, p73)
Passando por um período de rápidas e profundas transformações em diferentes áreas que integram o campo da ação e saber humanos, Simmel, temia que as mulheres perdessem essa experiência secular.
Na visão de Simmel a resolução desse problema se encontraria na construção de uma nova modelação das atividades exercidas pelos homens e mulheres.
Tratava-se, em primeiro lugar, de estabelecer uma outra divisão dos trabalhos, de redistribuir os trabalhos globais de uma profissão dada, de reunir depois os elementos especificamente adaptados ao modo de trabalho especificamente femininos, para constituir esses ofícios parciais, singulares, diferenciados.
Procurando avaliar as implicações disso na medicina, por exemplo, Simmel afirma que:

A questão que colocamos é de saber se as médicas, além de um aumento do bem-estar físico e moral, proporcionarão alguma melhoria na cultura médica impossível de se realizar por meios masculinos. Ora pode-se efetivamente esperar tal coisa, dado que o diagnostico e a terapia, dependem, ambos, numa parte não desprezível, da capacidade de sentir o estado do paciente. Os métodos de exame clínico tidos como objetivos logo se esgotam, se não forem completados por um sentimento subjetivo do estado do doente e de seus sentimentos, seja esse conhecimento imediatamente instintivo, seja mediatizado por manifestações quaisquer... É por isso que estou persuadido de que, confrontada a mulheres, uma médica, além de ter diagnosticado mais exato e o pressentimento mais fino para tratar dos casos individuais de maneira conveniente, ainda poderia, sob o ângulo puramente cientifico descobrir conexões típicas, não detectáveis por um médico, e dar com isso contribuições específicas à cultura objetiva. (SIMMEL, 1993, p.76).


Por meio dessa assertiva pode-se perceber que Simmel não queria que as mulheres fossem tolhidas ou excluídas dos direitos que os homens possuem. Muito pelo contrário, a contribuição especifica das mulheres a cultura objetiva, só seria possível se elas antes desfrutassem da formação e oportunidade que os homens dispunham, não para imitá-los, mas, para “adquirir a base, o material e a técnica necessários a suas possibilidades particulares de trabalho” (SIMMEL, 1993, 86)
Portanto, o ingresso e participação das mulheres na cultura já historicamente dada seria bastante enriquecedor, pois a criação de uma nova nuança desse tipo, ou mesmo de um novo, continente da cultura, não corresponderia somente a formula social do desenvolvimento.
Colocadas essas questões é possível avançar na discussão e analisar mais de perto a historiografia brasileira do movimento anarquista e do movimento operário.A maioria dos trabalhos publicados até pouco tempo, deixam clara a sua preocupação com a dimensão social e política da luta travada pelos anarquistas, sem atentar muito para a questão de gênero . Apenas em tempos mais recentes, com o crescimento de estudos na área de história das mulheres e com o surgimento do conceito de gênero é que começou a se perceber a dimensão sexuada das práticas sociais e políticas dos agentes históricos.
Na esteira das pesquisas que procuram privilegiar a trajetória das mulheres no processo histórico, surgem na década de 1980 alguns trabalhos sobre o anarquismo a partir da perspectiva de gênero, revelando assim uma faceta feminina do movimento libertário brasileiro. Os trabalhos de CORRÊA (1982) e RAGO (1985) entre outros são uma amostra expressiva de tal tendência na historiografia sobre o movimento anarquista.
A leitura desses dois trabalhos foi de fundamental importância, pois possibilitou a nossa inserção no interior de uma historiografia pioneira acerca da atuação das mulheres no movimento anarquista. Porém, os referidos trabalhos, analisam a participação das mulheres no movimento anarquista sem discutir, de uma forma mais aprofundada, os impactos disso no processo de construção da cultura política libertária.
Para entender melhor essa questão realizamos uma pesquisa junto ao jornal anarquista “Terra Livre”, onde encontramos alguns artigos que nos ofereceram a matéria- prima para a realização desse trabalho.
Em um artigo intitulado “A Equivalência dos Sexos”, o anarquista Carlos Alberto chamou a nossa atenção para o fato de que a diferença da mulher em relação ao homem não devia ser tomada como sinônimo de inferioridade. Em sua avaliação, o simples fato de que os homens sejam dotados de uma capacidade lógica ou de abstração maior, não quer dizer que fossem superiores se comparados com as mulheres. A respeito desse assunto dizia que:

Admitamos pois que a mulher pensa diferentemente do homem, que pensa menos, se querem, e não receemos com isso diminuí-la. Se pensa menos, sente, actua melhor ao que parece. Há nella mais concordância e armonia entre a idéia e o acto, mais decisão, mais força para aceitar a vida e mais coragem para viver. (Alberto, Carlos. A Equivalência dos Sexos. Terra Livre, 22 mar. 1910, p.3)

Como se pode perceber o autor do texto procura discutir e avaliar as especificidades da cultura criada e desenvolvida pelas mulheres. Em sua opinião, as mulheres sentem mais e pensam menos, isso as tornaria mais aptas do que os homens para a ação.
Finaliza o seu artigo, argumentando que existe apenas uma única solução para o impasse criado pela desigualdade entre os gêneros, pois:

Porque não responder, dum modo mais categórico, às vilanias dos misóginos, com análise do tipo feminino, tipo que não vale mais nem menos do que o seu par, o seu tipo masculino, e o que o completa? Porque não perguntar aos homens, por mais talentosos e geniaes que sejam, como executariam as suas obras sem a mulher, e para quem, sem ella, a quereriam continuar? (...)Dos sexos opostos um ao outro só pode sair num certificado de equivalência. (Alberto, Carlos. A Equivalência dos Sexos. Terra Livre, 22 mar. 1910, p.3)



Com as mesmas preocupações, a militante libertária Josefina Stefani Bertacchi, no artigo intitulado “Na Brecha” procura desmistificar a idéia segundo a qual a diferença da mulher em relação ao homem significasse a inferioridade desta em relação aquele.

Deixemos as longas e inúteis discussões de se a mulher é igual ou mais ou menos inteligente do que o homem. A mulher não é homem porque é mulher e o homem não é mulher porque é homem.
Um e outro, tendo órgãos diferentes e por isso funções diferentes por graus e por qualidades, entre si e se completando e se aperfeiçoando (Bertacchi, Josefina Stefani, Na Brecha. Terra Livre, 15 Jun,1910, p.2)


Embora Bertacchi procure na biologia uma explicação para entender as diferenças existentes entre homens e mulheres, ela não aceita a idéia de que a desigualdade entre os gêneros tenha outra origem, a não ser a social. Nesse sentido, avança na discussão ao colocar que :
Se no correr dos séculos nenhuma mulher, tem feito inovações e descobertas científicas (só exceptuando Mfme Curie que descobriu o radism)... se a mulher nunca escreveu uma obra de valor absoluto, quer dizer que ella não tem altas qualidades sintéticas... é por causa dessa educação comoleta e hereditária. (Bertacchi, Josefina Stefani, Na Brecha. Terra Livre, 15 Jun,1910, p.2)


Por outro lado, a anarquista lembra que em virtude dessa exlcusão, as mulheres acabaram criando ou construindo novas formas de inserção social, política e cultural, que se diferem qualitativamente daquelas criadas pelos homens.

Como professora, médica de mulheres e de crianças, como escritora de romances pessoais e sociais, e particularmente como pregadora de boas idéias, deu prova a todos que tem aptidões apreciadíssimas, que fazem dela o que deve ser, isto é incansável companheira incansável no trabalho, útil a tornar populares as idéias mais abstratas, e são humildes quanto ardorosas, redentora das classes desoladas. (Bertacchi, Josefina Stefani, Na Brecha. Terra Livre, 15 Jun,1910, p.2)



No que concerne às mulheres anarquistas podemos argumentar que: em virtude da divisão sexual do trabalho, as mulheres se viram privadas de ser guerreiros, soldados e presidentes. Inexperientes em cargos habitualmente ocupados por homens, as mulheres desenvolveram uma experiência maior na gestão da vida, na administração do lar, no trato com crianças e com os idosos, de vínculos com o corpo e com a sexualidade. A partir dessas experiências, construíram uma visão menos dura, objetiva e racional do mundo, incorporando também a flexibilidade, a subjetividade e os sentimentos. Assim, o ingresso e participação das mulheres no movimento anarquista constituiu um processo que se inscreveu dentro de um registro político diferenciado. Ao se tornarem militantes ácratas, as mulheres não perderam essa experiência, mas, sim a conservaram, trazendo, portanto, contribuições específicas para a cultura política libertária.
Se hoje, as mulheres tem o direito a uma vida profissional, a estudar, a participar da vida política, se hoje, as mulheres, podem então, dar uma contribuição específica a cultura objetiva, até pouco tempo tida como exclusivamente masculina, é porque no passado elas foram, em grande parte, ajudadas e auxiliadas pelas libertárias femininas, que lutando contra o machismo e o sexismo imposto pelos homens em sua época, inclusive pelos anarquistas, abriram o espaço para a aquisição dessas conquistas históricas por parte do gênero feminino na contemporaneidade.

Thiago Lemos Silva

Referências
CORRÊA, Franciso. Mulheres libertárias: um roteiro, In: PRADO, Antonio Arnoni. Libertários no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1982.

LOPREATO, Christina da Silva Roquette. O espírito da revolta: a greve geral anarquista de 1917. São Paulo: Annablume, 2000.

OLIVEIRA, Antoniette Camargo. Despontar, (Des)fazer-se, (Re)viver... a (des)continuidade das organizações anarquistas na Primeira República. Dissertação (Mestrado em História). UFU, Uberlândia. 2001

RAGO, Margareth. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

SIMMEL, Georg. A Filosofia do amor, São Paulo: Martins Fontes, 1993.



Entre o divã e a poltrona: uma análise sobre a vida e a obra de Freud sob as lentes cinematográficas.


O filme “Freud: para além da alma”, traz à tona os caminhos percorridos por Sigmund Freud no processo de construção da sua teoria psicanalítica no fim do século XIX e início do XX. Nesse sentido, a trama de John Huston, mostra que os principais conceitos freudianos foram desenvolvidos a partir das próprias experiências empíricas que este último teve para com seus pacientes.
Freud encontrou formas de pensar e compreender a realidade e a psique humana, de forma diferente e oposta do padrão convencional da sociedade vitoriana. Sociedade esta marcada por costumes e tradições, extremamente, rígidos e arraigados. Por isso mesmo, foi criticado e censurado por colegas de trabalho e outros profissionais, na medida em que tecia conceitos, tais como: o inconsciente, complexo de édipo, histeria, neurose, sexualidade infantil, sonhos, dentre outros.
Nessa perspectiva, o inconsciente se refere ao material que foi excluído, censurado e reprimido de nossa consciência. Em outras palavras, o inconsciente seria estruturado por elementos instintivos, que nunca foram conscientes e que não são acessíveis à consciência.
Já o complexo de édipo, em linhas gerais, corresponderia ao momento da infância (fase fálica) onde (inconscientemente), o menino passa a desejar sexualmente a mãe e a menina o pai. Assim, essa é uma fase importante para o desenvolvimento do superego.
A histeria é a maneira através da qual conflitos emocionais inconscientes se manifestam em forma de perturbações mentais ou em sintomas físicos, independentemente de qualquer patologia orgânica ou estrutural conhecida. Portanto, a histeria seria uma espécie de neurose causada por lembranças reprimidas e carregadas por uma forte carga emocional e que é perceptível tanto em homens como também em mulheres.
Diferentemente de todos os teóricos e pensadores da época, Freud, chamou a nossa atenção para o fato de que a sexualidade humana não se inicia na puberdade ou adolescência, conforme se imaginava. Pois, a sexualidade é um mecanismo que nos acompanha e se expressa desde o nosso nascimento. Visto dessa forma, a criança, na visão freudiana, não é um ser assexuado.
Somando-se a isso, os sonhos também tomam grande parte da obra de Sigmund Freud e, são, amplamente, discutidos no decorrer do filme. Mas, qual seria o significado dos mesmos para Freud? Para ele, os sonhos seriam uma forma da psique humana se defender e ao mesmo tempo se satisfazer. Quando sonhamos estamos colocando em voga aqueles desejos que foram reprimidos e/ou que não foram passíveis de se realizar a nível consciente.
Logo, “Freud: para além da alma”, é uma trama riquíssima que além de nos mostrar alguns dos principais conceitos da teoria freudiana, ainda nos revela a instigante forma que ele encontrou para construí-los. Isto é, tanto através de experiências que giraram em torno de sua própria vida pessoal (ao retratar a sexualidade infantil e o complexo de édipo, por exemplo), como também por meio de observações que fez dos relatos de seus pacientes. Uma vez que, como foi salientado, inicialmente ele fazia uso da hipnose como instrumento terapêutico. No entanto, vagarosamente, passa a acreditar que a melhor ferramenta para tratar seus pacientes seria encorajá-los a “falarem livremente e a relatarem o que quer que pensassem independentemente da aparente relação – ou falta de relação – com seus sintomas” ( FADIMAN ; FRAGER, 1986, P.5).

Fernanda Caroline de Melo Rdrigues



BIBLIOGRAFIA:

FADIMAN, James; FRAGER, Robert. Teorias da personalidade. São Paulo: Harbra, 1986.
FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Volume vii (1901-1905), Edição Padrão Brasileira, Imago, Rio de Janeiro; 1978.



Notícias libertárias


Mini-curso sobre anarquismo.

Em meio as atividades que aconteceram durante a Semana de História/X Encontro Regional de Professores de História do Triângulo Mineiro, na Universidade Federal de Uberlândia/ Campus Santa Mônica, Thiago Lemos Silva e Adonile Ancelmo Guimarães apresentaram nos dias 22, 23 e 24 de junho o mini-curso: “NÃO SE DEIXAR REPRESENTAR... VIVER A AUTONOMIA: AÇÃO DIRETA E VIOLÊNCIA REVOLUCIONÁRIA NO PENSAMENTO ANARQUISTA”. Abaixo, segue um relato dos dois.
Apresentamos esse minicurso porque compreendemos que é importante trazer para o debate político atual a possibilidade de novas estratégias de luta e resistência e, ao mesmo tempo, provocar um debate acerca da violência revolucionária e as suas diversas formas de manifestação contra os outros tipos de violência considerados legítimos: repressão policial, opressão estatal, exclusão social. Ancoramos essa discussão no conceito político de ação direta, dando ênfase nos movimentos anarquistas e sindicalistas revolucionários, manifestações importantes tanto em nível nacional quanto internacional.
Primeiramente, abordamos o processo de emergência e consolidação do anarquismo, enquanto um movimento revolucionário, que toma a sua forma histórica na ação e propaganda de Mikhail Bakunin e seus seguidores na Primeira Internacional em 1869. Nesse sentido, argumentamos que a ação econômica defendida pelos bakuninistas serviu para demarcar a especificidade assumida pela estratégia revolucionária anarquista, que surgiu em oposição à estratégia revolucionária marxista, identificada, ao menos naquele contexto, com a ação política. A despeito da terminologia evocada, acreditamos que a ação econômica reivindicada pelos anarquistas naquele contexto foi o primeiro móvel de expressão da ação direta, que, diferentemente da ação política defendida por Marx, pregava a atuação revolucionária dos trabalhadores fora dos quadros partidários.
Para o reforço de tal tese, passamos em revista, ainda que de forma sucinta, alguns tópicos concernentes ao debate travado entre Marx e Bakunin no seio da Primeira Internacional.
Num segundo momento, focalizamos o anarquismo terrorista. Explanamos que no período que sucedeu a destruição da Comuna de Paris em 1871, os anarquistas principiaram uma série de ações que objetivavam chamar a atenção do povo para a causa revolucionária. Essa propaganda levada a cabo pela ação incluía desde a explosão de prédios públicos até o roubo aos mais abastados, passando pelo assassínio de autoridades políticas. Mais uma vez, apesar da evocação terminológica, defendemos que a propaganda pela ação foi uma forma a partir da qual os anarquistas entenderam a ação direta.
A esse respeito expusemos e comentamos a recepção que a “propaganda pela ação” recebeu nos meios anarquistas. A repercussão negativa que esta modalidade da ação direta alcançou, principalmente na imprensa burguesa da época, levou os libertários a colocar em questão a (im) pertinência da utilização de métodos violentos no processo revolucionário. É possível alcançar a sociedade anárquica por meio da violência? Se sim, em quais condições ela poderia ser usada? Há a possibilidade de usar a violência, sem descambar para o terror? Dito de outra forma,é exeqüível fazer um uso ético da violência em nome dos preceitos ácratas? Tais questões que perseguiram, durante muito tempo, os anarquistas foram, ainda que minimamente, retomadas e discutidas no decorrer do mini-curso.
Posteriormente, o eixo de nossa análise se deslocou em direção ao contexto histórico em que se deu, em virtude da entrada dos anarquistas no sindicato, o surgimento do sindicalismo revolucionário na França entre o fim do século XIX e o início do século XX. Examinamos a Federação das Bolsas de Trabalho e a Confederação Geral do Trabalho, intencionando verificar o envolvimento dos anarquistas nestas duas instituições, e, a partir daí, perceber as mudanças sofridas pela ação direta enquanto uma estratégia anarquista que passou a ser vinculada, quase que exclusivamente, ao mundo do trabalho, se manifestando através das práticas de boicote, sabotagem e greve.
No entanto, mostramos que o ingresso dos anarquistas nos sindicatos trouxe muito mais problemas do que soluções. As discussões, acontecidas em uma escala de alcance internacional, atestaram o fato de que anarquistas sindicalistas e anarco-comunistas não se encontravam totalmente de acordo com as prédicas do sindicalismo (doravante chamado) revolucionário. Os anarquistas, uma vez ingressos no sindicato, deveriam permanecer eternamente nele? Eles poderiam apenas fazer propaganda ou ocupar funções diretivas? O sindicato era um meio ou um fim na consecução dos objetivos libertários? Estas são algumas, dentre várias, questões colocadas pelos anarquistas em relação ao sindicalismo que investigamos em nosso mini-curso.
Para tanto, discutimos a posição assumida por dois grandes anarquistas: Errico Malatesta e Pierre Monatte, que, cada um ao seu modo, formularam e conceberam diferentes concepções do que deveria ser a tarefa dos sindicatos. Discutimos ainda uma terceira posição: Neno Vasco que, em nossa avaliação, ocupa uma posição intermediária entre aquela assumida por Malatesta e Monatte.
E por fim, averiguamos a atualidade da ação direta. Trabalhamos com a certeza de que a experiência libertária não é coisa do passado, mas toma parte importante nas lutas cotidianas dos oprimidos contra os diversos regimes de poder a que estamos hoje submetidos.
Portanto, trabalhamos com os temas do anarquismo não apenas para informar e ensinar o que foi as diferentes facetas do anarquismo como movimento social revolucionário, mas, diferentemente, para despertar a discussão e o debate a temas que ainda hoje nos afetam como o assujeitamento passível a burocracias e hierarquias cada vez mais insidiosas e desprovidas de sentido e a desilusão intensa com os políticos, nossos ditos representantes que se tornaram uma casta que nos envergonha, causa descrença, mas é incapaz de nos incitar a revolta, pelo menos numa escala mais ampla e conseqüente.
Gostaríamos de agradecer a todos que participaram do mini-curso, em especial ao Daniel, Adair, Adilson, Sandra, Eric, Mateus, Ana Luiza, Flávia e ao Leonardo pelo interesse que demonstram no anarquismo e nas alternativas que ele pode trazer para o contexto político atual.






Centro de Cultura Social de São Paulo realiza Seminário para comemorar  o bicentenário do nascimento de Prouhon

Proudhon entre nós

É espantoso que se conheça do pensamento proudhoniano pouco além do slogan “a propriedade é o roubo!” Não obstante ter recebido de Marx o enfático elogio que o celebrou “como o pensador francês mais arrojado” e conferiu à sua obra O que é a Propriedade? a mesma importância atribuída à obra de Sièyès, O que é o Terceiro Estado?, Proudhon permaneceu historicamente um célebre desconhecido.
Até a 1ª Internacional e a Comuna de Paris, Proudhon exerce forte influência sobre os operários, artesãos e communards; mas em seguida é vencido pelo bakuninismo. Bakunin legou para a posteridade a leitura hegeliana que classificou Proudhon de “pré-anarquista” e que qualificou seu pensamento de metafísico e desprovido da cientificidade exigida pela revolução. Face ao revolucionarismo bakuninista, Proudhon é retratado como a criança rebelde do socialismo.
Foi com o declínio do hegelianismo e com a ressurgência de Nietzsche, a partir dos anos 1990, que um forte interesse renovado pela obra de Proudhon se fez presente, nutrido sobretudo pelas filosofias de Foucault e Deleuze. Esta retomada de Proudhon reflete uma renovação sem precedentes do próprio anarquismo, restituindo a força da sua crítica na atualidade e estabelecendo novos percursos de estudos. É neste contexto de redescoberta e renovação da obra de um dos autores seminais da anarquia que o CCS propõe neste seminário pensar sua atualidade no ano de seu bicentenário; dando continuidade, com isso, ao ciclo de estudos iniciados em 2008 com as Oficinas Libertárias: Proudhon.
Coordenação:Nildo Avelino

Programa:
12/09/2009, abertura:
Proudhon nas dobras do milênio, com Paulo-Edgar Almeida Resende (Doutor em Ciência Política, professor na Faculdade e no Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP onde é coordenador do Núcleo de Análise de Conjuntura Internacional (NACI), co-organizador, juntamente com Edson Passetti, do volume Proudhon – Coleção Grandes Cientistas Sociais [São Paulo: editora Ática, 1994]).

19/09/2009:
A miséria ou o antifilosófico em Proudhon, com Edson Lopes (Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP, autor de Política e Segurança Pública: uma vontade de sujeição [Rio de Janeiro: editora Revan, no prelo], integrante do CCS).

26/09/2009:
Anarquia, num encontro com Proudhon e Deleuze, com Natalia Montebello (Doutoranda em Ciência Política pela PUC-SP, professora na ESPM, integrante do CCS).

17/10/2009:
Proudhon, Foucault e a (an)arqueologia dos saberes, com Nildo Avelino (Doutor em Ciência Política pela PUC-SP, autor de Anarquistas: ética e antologia de existências [Rio de Janeiro: Achiamé editor, 2004], integrante do CCS).

24/10/2009, encerramento:
Proudhon e a (pós)modernidade: reflexões im-pertinentes, com Jacy Seixas (Doutora em História, professora e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em História da UFU-MG, autora de Mémoire et oubli: l'Anarchisme et le Syndicalisme Révolutionnaire au Brésil [Paris: éditions de la Maison des Sciences de l'Homme, 1992], integrante do CCS).

Fonte: http://www.ccssp.org/



Editora Faísca lança biblioteca virtual

É com muito prazer que gostaríamos de anunciar a todos vocês o lançamentoda Biblioteca Virtual da Editora Faísca! Nesse novo espaço dentro de nossapágina, disponibilizaremos para download gratuito diversos textos.Fruto do trabalho da lista de voluntários da Faísca, nossa BibliotecaVirtual já está no ar dispondo dos seguintes livros: "Feminismo, Classe eAnarquismo", de Deirdre Hogan -- Revolutionary Anarcha-Feminist Group(RAG), "Domingos Passos: o 'Bakunin brasileiro'", de Alexandre Samis eRenato Ramos, "Huerta Grande -- A Importância da Teoria" e "O que éIdeologia?", ambos da Federação Anarquista Uruguaia (FAU), "Anarquismo eAnarquia", de Errico Malatesta e "O que é Anarquismo?", de Nicolas Walter. Mas estes são apenas os primeiros títulos! Pretendemos alimentar essainiciativa constantemente e já temos algumas dezenas de outros textos para serem lançados. Aproveitamos a oportunidade para agradecer publicamente aos dois maioresresponsáveis pelo lançamento da nossa Biblioteca Virtual. Ao Farrer e ao Luiz Carioca, o nosso muito obrigado pelo excelente trabalho! Esperamos que essa iniciativa se amplie, continue dando frutos, e claro,que todos visitem, aproveitem e divulguem esse trabalho!

Fonte: http://www.alquimidia.org/faisca/index.php